Tosco Pai: um dia daqueles!

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Esses dias a gente tinha brigado – aliás, quase todos os dias a gente tem brigado, Nãoo muito na frente dela, mas com certeza ela percebe.

Não me perguntem porque a gente tem brigado, nem eu sei dizer. Sei que está acontecendo com uma frequência bem maior. Os motivos, os mais bobos. Nesse dia em questão, brigamos por sermos diferentes, tanto na ideia do que é passeio, quanto sobre a quantidade de comida que cada um põe no prato. Os motivos nem sempre valeriam uma guerra, mas a gente é assim, dá muito valor pra pouca coisa.

Depois de verdades ditas, cada um foi para um lado – na verdade, eu saí pra trabalhar e elas foram ao cinema.

– Pai, você não vai no cinema com a gente?
– O pai não pode, precisa ir trabalhar.
– Você vai voltar mal-humorado?
– Por quê? Sempre volto mal-humorado?
– É. Quando você volta do trabalho, volta mal-humorado.

Não tinha noção disso, mas minha filha, que ainda não carrega filtros na fala nem no pensamento, percebe isso.

Outra vez, num meio de semama ela ficou fascinada porque acordei sorrindo.

– Hoje você acordou sorrindo pai!
– Eu nem sempre acordo sorrindo?

Claro que eu sei essa resposta: não acordo sorrindo. São raras as vezes que acordo sorrindo, ele vem ao longo do dia, mas, assim de imediato como o dela, não. Fui eu quem plantei o sorriso nela, eu que desde muito pequenina cantava alto na grade do berço amarelo.

– Boooooooom diiiiiiiiiia Alice!

O sorriso vinha, assim vinha o meu.

Na saída de sua nova escola, me lembrou.

– Pai, você precisa sorrir mais.

Essa desenhei e anotei na agenda, foi automático o rabisco como aquele frase. Entendeu ou quer que eu desenhe? Achei melhor desenhar, marcar, não esquecer que é preciso sorrir mais.

 

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Tem muito tempo – e não é só pra ganhar milk-shake – que ela diz que sou o melhor pai do mundo.

Me beija, abraça e agradece.

Mesmo quando a minha impaciência aparece, mesmo quando o mau humor chega do nosso lado, ela não se afeta, puxou a mãe, penso eu.

A mãe tem procurado sorrir mais, desde que a vida tentou pregar uma peça. No entanto, ela escreve outras linhas.

A gente erra, a gente briga um com o outro, faz parte do roteiro.

Eu carrego o drama, a pequena carrega o riso a maior carrega no peito uma aventura, um suspense – e a história fica mais rica a cada dia.

Mas tem dia que a gente não pode nem se olhar.

Nem o pai pra filha, nem a filha pra mãe, nem os namorados, que não são casados.

– Pai, por que você e a mamãe não são casados?
– Porque a gente é namorado.
– Por que vocês não tem anel de compromisso?
– Porque a gente não acredita muito nisso e nem gosta de usar anel no dedo, aliás, a gente tem uma aliança muito maior e valiosa.
– Eu?
-  Sim, tu.
– Que nem quando você me disse que eu sou mais valiosa que o diamante mais precioso?
– Isso. Não há dinheiro que pague, não existe nada mais precioso nesse mundo pra mim e pra tua mãe que tu.

Desde antes dela nascer eu canto “quando a gente ama não pensa em dinheiro”, cantei também quando no hospital me apresentaram os valores do parto. As dores do parto começaram no bolso.

Mas a gente “não pensa em dinheiro, só se quer amar, se quer amar se quer amar.”

No carnaval essa música foi a que encerrou nossos quarto dia de folia.

 

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Nesse ultimo dia, ela e a mãe se desentenderam. Alice quis sair de perto, se esconder, mudar o assunto. E assim o fez e, claro, se perdeu.

Eu estava fantasiado de Jesus, o cara que trocou 10 mandamentos por dois, que se resumem apenas em amar Deus (quem quer que seja o seu) e o próximo.

Lucia me mostrou que ela havia sumido, saí para procurar e, sem querer, dei uma cotovelada em alguém, nos terríveis cinco minutos que pareceram horas. Meu cotovelo acertou a testa de Alice.

A gente fez as pazes, os três, mas demorou.

Alice estava tão sem jeito e sem graça nesse dia que achou uma batata frita do chão e comeu.

Indagada sobre onde conseguiu a iguaria, perdeu ainda mais a alegria.

Tomou outra descompostura. Dia longo o último dia de carnaval.

Voltamos para casa em silêncio.

Mais para frente, no enterro dos ossos, estávamos tomando sorvete. Alice com seu tradicional de calda de chocolate e bolinhas e eu com o meu com calda de manga e gengibre.

Eu conversava com o pai de uma amiguinha. Alice tinha desistido do sorvete.

Eu terminei o meu e vi uma bolinha grudada em meu braço.

– Que bolinha é essa? Posso comer?
– Não! Que comer do chão de novo? Parece um pombo. Posso te chamar de pombo?

Visivelmente constrangida e envergonhada diante do pai de sua amiga, ela me dá um golpe certeiro.

– Se me chamar de pombo eu posso te chamar de fofoqueiro.

Claro que respondi a menina, mas eu já estava derrotado.

Eu aprendi mais uma lição. Além de sorrir mais, de procurar ter muito mais bom humor, é sempre melhor evitar constrangimentos e brigas desnecessárias.


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