Tosco Pai: a estreia!



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De uns tempos pra cá, principalmente quando estou sozinho, tomamos banho junto, tomo o meu rapidamente e saio…
Assim deixo ela sozinha, e ela aprende a tomar o banho do jeito dela.

Depois de me secar, vestir e colocar uma roupa muito transada, volto pra resgatar a guria.
Agora pra tudo na vida existe um…
– Deixa eu ficar mais um pouquinho.
– Não guria, já deu…Não podemos gastar toda a água do Peixonauta…(Tática de persuasão da mãe).
– Mas só bem pouquinho!
– Não flor, vamos nessa…1, 2, 3…
– Não, pai, não conta…
– 4, 5, 6, 7…Pronto! Por que não conta?
– Ai, pai, não conta, a vida é só contar…
– O que tu disse?
– A vida é só contar…
Fico meio sem ação, penso muito no que ela disse, mais aí começo a fazer umas idiotices, quando se tem uma menina inteligente é melhor equilibrar a equação.
Faço uns barulhos engraçados, sons bem estranhos e idiotas, mas que se resumem na onomatopéia do frio.
– Burrrrrrr!!!
– O que você tá fazendo?
– Tô espantando o frio! Mandando o frio embora.
– Mas você não pode mandar o frio embora?
– Não?
– Não! Tem que pedir por favor…

Como se Tosco Pai precisasse fazer idiotices para parecer idiota…

Vou para o quarto de hóspedes, mas não posso ligar a luz, pois a mãe dorme.
No quarto dela tá muito frio, levo então para o meu quarto.
Alice ama vestidos. Pode estar muito frio, mas para ela o que importa é que ela esteja com um vestido bem bonito, e sem casaco, para que este não interfira no look.
Escolhemos um belo, vamos a uma festa de aniversário, ela ficará divina.
Tudo parece funcionar, até o momento em que o pai tosco esbarra no zíper.
Coloca o vestido…
– Ai pai, tá tudo escuro…
– Calma, guria, a gente já acha a saída…
– Mas, pai, tá apertado…
Tento abrir o zíper, mas ele emperra no meio…
– Pai, a gente não vai colocar mais esse vestido?
Voz embargada, olhos marejados…
– Vamos, filha, só preciso resolver…
– Então, resolve…

Ai, porque ela nasceu assim tão sagaz?

Penso em acordar a mãe, mas ela dorme tão bem e tranquila no entardecer de um sábado…
Sacanagem com quem trabalha tanto…
Tiro o vestido, zíper ainda emperrado…
– Consegui!
Coloco de novo, mas ele não fecha.
Alice me olha.
– Você vai conseguir!
– Obrigado, filha, preciso desse apoio…

– Eu já disse: você vai conseguir!
No entanto, não consigo, o vestido entra e sai da guria umas 5 vezes, as estratégias vão mudando, ora coloco com o zíper quase fechado, mas não passa pelos ombros, depois tento por baixo, quando ele abre, depois não fecha.
– Filha, vamos colocar outro?
– Mas eu “querio” esse…
– Eu sei, mas não tô conseguindo…
– Mas você vai conseguir…
– Obrigado…
– Vamos falar com a minha mãe..
– Não, filha, a mãe tá nanando…Vamos deixá-la…
Na verdade, na minha cabeça agora está piscando em neon, “nem pensar”, agora é uma questão de honra, onde já se viu, um pai perder para um vestido feito em Bangladesh. Jamais!
Além do mais, ela acredita em mim, como posso olhar nos olhos dela depois que eu desistir?
Respiro, encaro o vestido, peço pra ela ficar imóvel, e zuuuuuup, sobe o zíper, fechado está, missão cumprida!
Antes do meu brado de alegria, vem a voz doce da menina.
– Viu, pai, eu disse que você ia conseguir!

Beijo a guria cheio de contentamento e digo…
– Tu é otimista!
– O que é otimista?

Bom, agora faltam as meias e os sapatos, levo ela para a sala, coloco um vinil, Elvis Presley, um desses greatest hits

Na sala, secando o cabelo, toca a primeira faixa: Bridge Over Troubled Water.
Alice é incrível, ela escuta um acorde um pouco mais triste e já mareja, já treme o queixinho…

– Quero mais agitada, não gosto de música emocionada…
Viro o disco, agora uma agitada… Blue Suede Shoes.
Ela não para, preciso secar o cabelo, se mexe, dança, fala, não quer desse jeito, quer de outro, e eu ainda um pouco traumatizado com o vestido e preocupado com a hora largo um…
– PAAAAAAARA, ALICE!
Ela se assusta, chora. Começamos uma briga.
No auge da nossa discussão, toca Love me Tender.
O sentimento ruim da briga se mistura com a música “emocionada”.
Soluça, e eu já me sinto o pior pai do mundo, quanta falta de paciência, ela é uma criança, Ricardo. Fico me punindo, pensando seriamente na minha postura.
Abraço a menina, beijo sua testa, peço desculpas e na vitrola toca, Don’t be Cruel to a Heart That’s True
Pois é, Elvis, o coração dela é só verdade e eu fui cruel…
– Desculpa, filha!

– Eu não gostei que você gritou!
– Eu sei, o pai errou…
– É, você errou…
– É que tu não parava, eu preciso secar teu cabelo pra tu não ficar doente, a hora de vestir é a hora de vestir, a de comer é outra, e a de brincar também. Tudo tem sua hora!
– Eu faço tudo errado…
Ela sempre diz isso, canceriana que é… Me dá a punhalada certeira no coração, já me sinto mal, me arrependo na hora, mas ela sempre faz a mesma carinha com olhos caídos e queixo trêmulo, finalizando com essa frase que acaba com as minhas ambições de ser o pai do ano.
Porém, ela não para por aí.
Durante muito tempo inventei uma regra contra gritos, “só pode gritar no chuveiro e onde não tem teto”, falo isso pra ela desde seus dois anos de idade, e ela fixou a regra.
Então, ela retira a faca do meu peito e enfia de novo!
– Você gritou comigo, aqui tem teto e você gritou!
– Eu sei Alice, desculpa…
– Não pode gritar!
– É, tu tá certa…
– E você errou!
– Eu sei!
– E chega dessa “brigaria”…
– Eu concordo, amor…
Estendo meu dedo minguinho, nos cumprimentamos, esse é o sinal para acabar com a “brigaria”…
Ela sai da sala, o disco já acabou, fica só o ruído dele girando e um tup, tup, tup da agulha passando por uma faixa sem melodia…
Volta do banheiro e me dirige uma pergunta calmamente…
– Ô paaaai, né que a gente não pode bater nem gritar?
– É filha…
– Mas você gritou…

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