Tosco Pai: eu já estive no seu lugar



tosco-pai-livros-01
tosco-pai-livros-02
tosco-pai-livros-03
tosco-pai-livros-04
tosco-pai-livros-05

Eu já estive no teu lugar. Era assim que as professoras me apavoravam.
“Eu já tive a tua idade”, era quando elas me convenciam de que o que eu estava fazendo não era nada novo.
Sentado no fim da sala de aula, cochichando com os colegas sem nenhuma atenção na aula, era como eu era descoberto.
Cresci, envelheci, amadureci (pouco). Ainda há um longo caminho, mas sou pai, já fui filho, já não quis dormir na hora que me mandavam, não suportava leis inventadas no dia, na hora, em qualquer momento por um adulto.
Hoje, adulto, eu invento as leis.

– Alice, vai dormir.
– Ah, pai, mas eu quero assistir…
– Cara, tu tá assistindo faz tempo e hoje nem teve escola. Tu passou a tarde toda assistindo.
– Mas pai…
– Na boa, cara, criança tem que dormir cedo e tu é criança, certo?
– É, mas por que os adultos dormem tarde? Eu queria dormir tarde que nem os adultos.
– Tu quer ser adulta? Melhor pra mim, daqui pra frente tu vira adulta e eu deixo de te dar presente no dia das crianças, vou economizar um bom dinheiro. Tu adulta, já com 6 anos, que beleza, vou economizar vários dias das crianças.
– Tá! Eu quero continuar criança. Mas porque a gente tem que dormir cedo?
– Bom, porque tu tá crescendo e se tu vai pra cama 21:30, 22:00 teu corpo descansa e se desenvolve enquanto tu dorme.
– E os adultos não crescem?
– Não mais. A gente para de crescer lá pelos 16 ou 18 anos.
– Só cresce pros lados?
– É… Tá, Alice, vamos dormir, já são 22:30, e essa hora já não tem mais história.
– Você não vai ler pra mim?
– Não, já tá tarde.

Claro que toda minha bipolaridade misturada com minha crença de que um livro é sempre muito importante antes de dormir, mais necessário que aquele copinho de leite morno, faz eu voltar atrás.

– Bom, Alice, eu acredito que é muito bom a gente ir pra cama com um livro, ler antes de dormir é bem legal, quando tu começar a ler…
– Eu já sei ler.
– Bom, então vou te deixar aqui com esse livro e tu lê.
– Não, eu sei ler, mas tem palavras que eu preciso de ajuda, e eu gosto quando você lê pra mim…
– Bom, como tá tarde, vou ler esse livro, bem curtinho.

Peguei o livro que ela ganhou quando tinha menos de dois anos, um livro de pano, com seis páginas chamado “Por la Tarde”. Rápido como discurso monossilábico. Aqueles do tipo “era melhor não ter lido”.

A semana passa e outras noites chegam, agora menos conturbadas. Entre 21:30 e 22h o processo do sono começa. Desliga a televisão, toma os remédios, escova os dentes. Tudo certo. Até essa segunda-feira. Começo a arrumar meu estúdio. No relógio já são 20 horas e 30 minutos, não vejo o tempo passar. A mãe chega.

– A criança tá abandonada?
– Não.
– Mas tá lá assistindo TV.
– Bueno, fiquei arrumando aqui e me perdi.
– Coloca ela pra dormir? Dá o fatality?
– Sim.

Vou pra sala, cheio de autoridade.

– Ei, cê desligou a TV.
– Sim, já passou das dez!
– Mas pai…
– Cara, tá na hora e agora tem a regra nova, depois das 10 não tem mais livro.
– Ei! Mas a regra era um livro pequeno.
– Não, tu enrola, regra nova, agora é sem livro.

Vai toda a lista, remédios, dentes e vai braba pra cama.

– Olha, cara, tu sabe que gosto de livros…
– Já sei, você vai pegar aquele livrinho curtinho em espanhol.
– Não mesmo. Tu sabe que não gosto de repetir livros. Vou procurar outro.
– Ah, pai, que tal as histórias do Dia a Dia?
– Boa ideia, esse é bom.

Na verdade, não gosto do livro, as histórias não são boas, elas são contos mal contados e ainda a turma pecou na revisão, muitas palavras erradas. No entanto, no objetivo de contar uma história rápida, ele funciona. Nosso método para ler é “escolhe um número”. De acordo com a escolha, abro na página e mergulhamos nas palavras. Ás vezes, o número fica no meio da história, então pergunto pra ela se avanço ou se retorno uma página.

– Qual o número?
– 37.
– Boa…
– Mas, pai, você tem que falar do 1 ao… Qual é o número mesmo?
– Ai, Alice, tu já não escolheu o 37? Tu enrola, né? Vamos lá, do 01 ao 64.
– 37.
– Tá.
– Não… 6 que é minha idade.
– Tá, guria, 6 ou 37?
– 38.

O paciente pai (contém ironia) bufa nesse momento.

– Tá, Alice, vamos lá? Posso começar?
– Tá…

Alice sempre espera o momento certo pra interromper, perguntar algo que julga importante. Quanto mais interrompe, mais tempo fica acordada. Foi difícil dosar isso, entender o que era dúvida e o que era malandragem. Daí, na época surgiu a regra do “não interrompa, levante a mão”.

Enquanto eu lia a história da página 38, logo no fim do primeiro parágrafo ela levanta uma mão.

Não dou bola, lá pelo terceiro parágrafo levanta as duas mão e gesticula sem parar.

– Que foi Alice?
– Eu queria saber, se, quando, é que, bem… Acho que eu esqueci o que eu queria perguntar.
– Sério, Alice? Tu vai fazer isso mesmo? Interromper a história só por interromper, só pra não dormir, só pra ficar mais um pouco acordada? De que adianta? Cara tu não pode esperar o fim da leitura? Tem sempre que interromper? Mesmo no dia que vem dormir tarde?

Agora, darei o meu golpe de misericórdia, aquele que tem funcionado muito bem.

– Bom, Alice, tu acha que eu nunca tive seis anos? Tu acha que eu nunca quis não dormir no horário? Pois bem, Alice, eu já tive a tua idade e já fiz tudo o que tu fez, inclusive enrolar os outros pra não dormir. Eu sei bem o que tu tá fazendo…
– Opa. Você me pegou. É verdade…
– Pois bem, Alice, se não der pra esperar até o fim da história pra gente conversar sobre o livro, eu encerro por aqui.
– Tá bem.

A história chega ao fim, o sono também chega. Claro que tudo é um grande medo de ficar sozinha, de fechar os olhos.
Saio do quarto, apago as luzes, deixo apenas o seu “mundinho” ligado, a luz noturna que guia ela até nossa cama. Logo em seguida, volto pro quarto, ela tá quase dormindo. Mas percebe minha chegada. Dramática como sempre.

– Quem tá aí? Pai é você?
– Sim, vim ver como tu tá e trazer tua água.
– Obrigada.

Dou um beijo. Mais um boa noite.

– Tu sabe que eu tô sempre por aqui né? Ou no estúdio, ou na cozinha, ou no meu quarto, e sempre venho ver se tu tá bem. Tu nunca tá sozinha.
– É, eu sei.


COMPARTILHE!




LEIA TAMBÉM: