Tosco Pai Musical

tosco+pai+musical+nmagazineNunca faltou pra mim, não há de faltar pra ela.
Levou a gente 36 horas antes de nascer pro hospital.
Fez eu deixar um setlist pronto.

Eu lembro de uma vez acordar em casa, morava na cidade de São Vicente do Sul, ao sair do meu quarto na sala estava meu pai batendo com uma colher no seu chinelo de couro, minha mãe rindo balançando a cabeça, o mesmo faziam alguns amigos ao som da viola de Satan, nome do músico e animador da citadino.

Nessa mesma cidade, minha mãe era diretora da escola, ou vice, não tenho essa informação clara, porém ocupava um importante cargo na escola da cidade, onde suas duas filhas, mais velhas eram balisas, carregavam o estandarte do colégio. A banda passa em frente de nossa casa, e eu nessa época, creio que com 5 anos de idade, corro até os fundos de casa, apanho uma colher de pau quebrada e um tamborzinho e entro na batida, seguindo o trajeto em marcha.

Minha mãe, tenta, sem sucesso, me tirar inúmeras vezes da banda, mas a plateia inflamada com tanta fofurice, não deixava.

Depois disso, cresci amando música e, com os meus quatorze, a primeira banda.
Com elas tive o sucesso que sempre precisei, cheguei nos meus pequenos auges, e ainda sigo assim.
Conheci a mãe. Tentei impressionar as garotas tocando um riff de blues na gaita de boca.
Aquela que será a mãe me chamou de Evandro Mesquita.
Gostei da referência, gostei muito dela.

Depois de muito tempo ela entrou no estúdio onde eu estava cantando So Lonely, do The Police.
Acompanha o seu namorado.
Foi legal que depois, quando nos encontramos novamente, eu por algum motivo que até hoje desconheço, acertei o tom da música, e cantei um afinadissímo,

Well I guess you’ll say
What can make me feel this way
My girl (my girl, my girl)
Talking about my girl (my girl)

My Girl, tema do filme Meu Primeiro Amor.
Depois dali, passaram-se alguns anos e ela nasceu.
Na sexta-feira, ela me acordou, tentou, na verdade, e perguntou para a mãe…

– Por quê o pai tá dormindo tanto? Por quê ele não acorda?
– Porque ele ficou trabalhando até tarde!
Ficou me encarando…
Olhou fundo no meu olho entreaberto e me aconselhou…
– Pai, você precisa trabalhar menos pra acordar mais cedo.

Bela lição, acordei.

Lucia levou ela na escola, seu último dia de aula.
Daqui para frente, só férias.

No fim do dia, por volta de umas 16 horas, fomos buscá-la.
Ouvimos da professora o quanto ela é musical, e que precisamos estimular isso.

Me vem na cabeça todo esse passado da Alice.
Eu tocando violão quando ela era uma barriga, depois ela ouvindo deitada no moisés, o primeiro ano, a festa de dois anos com banda tocando pra ela, às vezes que foi pro ensaio comigo no carrinho adormecendo no caminho e dormir durante todo ensaio, alto, além de punk e tosco.

Alice compõe músicas, tomando seu banho sozinha, na minha garupa. Está sempre cantando. Expressa isso muito bem na dança, para meu desespero, pois tenho medo de dançarinos.
Mas estou apredendo com ela a vencer e superar esse trauma.

 

No sábado ela levanta antes de todo mundo, assiste seus desenhos tomando leite com chocolate. Ao meio-dia, eu saio da cama e vou montar o palco do festival que teremos no domingo.

No fim da tarde volto. Nesse dia ela ficará com uns amigos queridos para que seus pais possam assistir ao show do Stevie Wonder. Por um breve momento dá um chorada, querendo os pais. Nessa dia específico, mais a mãe.

– Mãe? Onde você vai?
Indaga vendo que tomamos o caminho oposto ao dela.
– Nós vamos pra um show, por isso tu vai ficar com a Preta e o Fábio…
– Mas eu quero ir junto…
Nesse pequeno momento de tristeza que nos separa do show, Fábio tem uma grande ideia.
– Vamos com a gente, até comprei uma peteca.
– Deixa eu ver?
– Só se tu for na minha casa, comprei pra gente brincar lá.
Nesse momento, já está de costas pra mim e pra Lucia, nos dando tchau e seguindo seu sábado.

Nós vamos para o show. Nele, Stevie canta o amor, celebra o amor. E lá estamos, representando nossa pequena família e com esse propósito.

Depois do espetáculo, já em casa, percebemos o silêncio, a falta que faz a música da Alice ecoando por todos cantos.

Sentimos isso no café dominical

Porém, nesse dia tem festival, e lá Alice vai nos encontar.

No sítio, tudo pronto. A Heleninha Roitman and the Punk Tosko Full Glass Band Project, vai tocar. Alice entrou no palco, seu lugar de costume, faz isso desde nosso primeiro show, Lúcia tenta tirá-la. Sem sucesso.
A primeira parte do show acaba. Noto que ela está com os pés descalços.
Eu já tinha tomado alguns choques de pés descalços, pensei que seria um experiência muito precoce para ela, resolvi previnir.

– Alice! Põe um sapato!
– Mas eu quero ficar de pé no chão…
– Mas aí tu leva um choque.
– O que é choque?
– Bah, é um troço que tu dá uma baita tremida. E dói. Não é legal. Se tu quer ficar no palco tem que botar um sapato.
– Eu quero ficar no palco.

Disso eu não tinha dúvidas.

Alice está num palco desde que nasceu, e, sem dúvida é a melhor composição feita por mim e Lucia. Algo como uma canção de Lennon e Mccartney, ou Jagger e Richards pra quem preferir.

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