Tosco Pai: Não me chama de peru!



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Desde que nasceu, muitos apelidos para uma só menina.
Alice se orgulha de seu nome, eu também. Mas sempre fui fã de apelidos. Sempre tive, sempre recebi, sempre coloquei e nunca tive problemas em aceitá-los.

Antes de sabermos que a guria se chamaria Alice, ou que simplesmente seria uma menina, chamávamos a barriga de “otrinho”, depois que descobrimos o sexo, ela passa a ser “otrinha”.
Já sabíamos que Alice seria o nome. Porém, quando se fica grávido primeiro perguntam…
Será menino ou menina? Qual o nome?
Eu e Lucia decidimos brincar com as pessoas, cada semana a gente mudava o nome da criança.
Que já se chamou Aurora, Shirley, Jéssica e Veruca…
Porém, alguns dias antes de ela nascer, confirmamos para as pessoas que ela, sim, se chamaria Alice.

Registrei a menina no 39º cartório da Avenida Faria Lima. Alice. Levei num papel, bem anotado para não esquecer.

Porém, ela recebe seu, digamos, segundo apelido, coto.
Por quê coto?
Bom, sempre ouvimos pelos corredores do hospital as enfermeiras falando ou entrando no nosso quarto com um vidro de ácool 77º GL falando…
– Precisamos limpar o coto umbilical!

Depois da alta, já em casa, a cada troca de fralda o pai jogava pra mãe, a mãe jogava pro pai…

– Tem que limpar o coto.
– Não esquece de limpar o coto…

Daí a menina Alice se transforma em Coto, Cota, ou o meu preferido, Dona Cotildes, claro, tem a derivação que também me agrada Cochild…

Ela vai crescendo e a cada dia vai ganhando mais personalidade. Com isso, vai aceitando menos os apelidos. Bate o pé com convicção e para cada apelido que dou fala olhando no meu olho.

– Meu nome é Alice.

Também para todos os idosos ou semi-idosos que olham pra ela e perguntam…
– Nossa que menina linda! Qual o seu nome?
– Alice!
– Alice no País das Maravilhas?
– Não, meu nome é Alice Toscani.
Nesse momento, sempre inflo meu peito de orgulho.

Bom, sou pai e também irmão mais velho, faço um pouco de bullying com a criança. Acho importante pro caráter dela.

– E aí, fedor, vamos tomar um banho?
– Eu não sou fedor, eu sou Alice.

Tem a outra…

– E aí, peru, tu quer comer o que?
– Não me chama de peru, meu nome é Alice…
– Tá bom peru…
– Eu não sou peru, eu não faço glu-glu.

Sempre muito convicta.

Um dia, ela muito preocupada com isso, indagou.

– Pai porque você me chama de peru?
– Ah, porque eu acho uma palavra bem legal, acho uma palavra bonita e engraçada.
– Mas eu não acho legal…
– Tá bom, não te chamo mais de peru, tá fedor?
– Eu não sou fedor, eu tomei banho, eu sou “cherosa”!
– Tá bom…
– Pai, porque você me chama de peru e de fedor?
– Ah, é que eu acho essas palavras tão engraçadas e divertidas.
– Mas eu não gosto.
– Tá, desculpa…

Bom, claro que eu não consigo me controlar, e que volta e meia escapam as minhas duas palavras prediletas, e ela sempre responde em alto e bom som.

– Meu nome é Alice!

Noutra situação, estávamos brincando, rindo e correndo pela casa, ela era alguma personagem, alguma princesa das que ela inventa, daí eu faço a voz do gigante do pé de feijão e brado um…
– Fi, fa, fo, fu…Tô sentindo cheiro de peru…
Nesse momento, ela está sentada no sofá, com um olhar medroso e preocupada.
– O que foi amor?
– Eu fiquei com medo…
– Medo do que?
– Do gigante.
– Eu não sabia que tu tinha medo do gigante. Foi só o pai fazendo a voz do gigante…

– Mas eu tenho medo, eu não gostei, não faz a voz do gigante, você pode até me chamar de peru, mas não faz a voz do gigante.

Essa foi a única vez que tive o aval para chamá-la de peru.
No entanto, agora a coisa ficou séria.
Alice comentou com a sua professora na escola que o pai fica chamando ela de fedor e de peru. A professora explicou que ela precisa falar pro pai e que ele precisa entender que ela não gosta de ser chamada de peru, nem fedor, e o pai precisa respeitá-la.
Fato! Desde a semana passada estou me policiando. É quase impossível, mas, sim, eu vou conseguir, é tudo um dia depois do outro.
Nesse mesmo dia, dentro do táxi uma conversa do tipo ultimato ao Tosco Pai.
– Você queria colocar meu nome de Coto, mas minha mãe teve uma boa ideia e me chamou de Alice. E às vezes você me chama de peru e de fedor e eu fico triste…

– Tá, o pai vai prestar mais atenção…

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