Tosco Pai: Natal, esse espírito de porco



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O espírito de Natal na verdade é um espírito de porco.

Eu sou um espírito de porco. Aviso antes de proseguirem com o texto.

Desde que descobri que minha filha faz de tudo por um presente passei a explorar o caso. Eu era assim.

Em 21/12/2015, Alice comeu seu primeiro rabanete. Nunca imaginei.

Rebaixei o Papail Noel, afinal, ele não existe.

Eu acho estranha essa cultura do bom velhinho. Afinal, criar uma mentira para automaticamente à partir dos sete anos – ou antes – ter que desmentir é, no mínimo, injusta. No entanto, resolvi tirar vantagens.

Menti, ou aproveitei a mentira.

– O Noel existe, mas para quem tu acha que ele pergunta se tu te comportou esse ano? Ele pergunta pra mim, claro.
– Sério?
– Sim, tu acha que o Papai Noel consegue ver todo mundo? Ele pergunta pros pais. Nós sabemos se tu comeu todas verduras, todos legumes, frutas…
– É mesmo? Então ele não vê todo mundo?
– Não! É difícil. Ele conta com a nossa ajuda.

Ano passado, já tinha percebido essa fraqueza nela.

Ela respeita muito a opinião do bom velhinho.

Sei muito bem que o que eu e minha mulher fizemos aqui, e até aqui, naquela noite foi muito bom, hoje é muito bom. A criança é maravilhosa. Mas enrola. Sua maior peraltice: ser parecida comigo.

– Alice desligou a televisão antes de almoçar?
– O que?
– A televisão. Desligou?
– Hã?

Nessa época do ano ela sofre. Ela não ignora pedidos, nem conversa passa desapercebida, muito menos ordens. Qualquer erro, qualquer deslize, vem o golpe baixo. Meu golpe baixo.

– Alice tu tá ligada no nosso gráfico né? Olha as minhas mãos.
– Quem que tá embaixo?
– O bom comportamento. Essa tá bem embaixo.
– Sério?
– Sério.

De novo eu olho pra dentro e afirmo comigo que estou fazendo muito bem.

Ela pede por favor, diz obrigado, fala e demonstra o amor pelas pessoas, bom… isso é natural, ainda bem. Quando é hora de dormir, enrola muito pouco. A fruta e a verdura vão algumas vezes com briga, mas vão. Quando não, ela argumenta, já provou muitas vezes – seis vezes, a sua idade, enfatiza.

Ela é um criança incrível, já falei isso…

Eu sou o espírito natalino, eu sou o espírito de porco, sou o que faz suborno durante um mês. Afinal, criar não é fácil.

Tento não ser como o meu pai, mas isso é impossível. Afinal, acho que ele fez muito bem por mim até aqui, me considero um bom homem, não devo isso a só ele. Mas ele é bem importante.

Bom, educar é isso, corrigir, acertar e, principalmente, encontrar o equilíbrio.

Ser eu, ser meu pai e ser ela.

Alice nunca viu o bom velhinho, ele sempre vai embora antes. E eu cresci com essa frustração. Nunca vi.

Aí vi pela primeira vez, depois vi em vários lugares, outros momentos, três deles, no mesmo lugar, entregando balas, mandando eu escovar os dentes. Os três. Uma magro, um gordo e um com o chapéu muito engomado apontando para o céu.

Todos atrás de máscaras.

Tudo mentira.

Hoje digo para ela que ele veio, mas já foi embora. Amanhã vou falar que ele não existe.

Por que sustentei essa mentira?

Para subornar em troca de bom comportamento? Ou alimentar sua fantasia?

Por que não falei pra ela que tudo vem do fruto do meu trabalho e do da mãe dela?

Na cabeça dela, existe, sim, um Papai Noel, e ele tem informações sobre ela. O pai é um “algagueta”, conta tudo o que ela fez e, principalmente, o que ela ainda não fez.

O cruel é que essa mentira me ajuda.

Pela manhã, a avó fazia tudo, preparava seu próprio café , do marido e da neta. Pediu para a neta desligar a TV. A menina, claro, não obedeceu. Ficou horas enrolando, comendo o sanduíche tipo um rato, roendo devagar, era hora da natação. Ela mantinha o olho no episódio do momento.

O pai surge como uma fera, dá a bronca e fala do o gráfico

– Tá bem ruim pra quem quer ganhar presente.

Muda de figura. Está atenta, obedece. Não se percebem erros. Todos esses seis anos em quatros dias que antecedem o Natal mudam.

Ela é simplesmente a melhor criança.

Não que eu não ache isso nos 365 dias de convivência, só acho tagarela, mas isso não é defeito. A gente sabe, ela conhece onde aperta o meu calo e eu sei bem onde aperta o dela.

No almoço, depois das broncas matinais Alice resolveu gostar de rabanete.

– Pai? Posso pegar outro rabanete?
– Pode!
– Pai, você se importa de eu comer outro rabanete?
– Nem um pouco. Aliás, trás um pra mim que eu vou provar.
– Você nunca provou rabanete? Deveria!
– Obrigado, muito bom.
– Pai, eu gostaria de saber como está aquele gráfico?
– Tá contando. De noite te conto.
– Por que de noite?
– Preciso contabilizar todos os erros e acertos.

Todos ficaram impressionados como ela estava comendo legumes, e ela sentiu isso, falava só em rabanetes. Tanto que, certa hora, eu já estava tão cansado em ouvir falar em rabanetes que lhe disse:

– Filha, tá tudo certo, os gráficos estão bem. Tu tá indo bem!
– Sério?
– Sim.
– E como tá?
– Só posso te falar de noite.
– Tá.

O milagre de Natal tá nisso. Mudar a gente um pouco.

É bom fazer diferente e tentar ser melhor ano que vem.

Vou tentar, com elas e todas e com todos.

Eu, quando criança, gostava muito de Natal. Hoje prefiro o ano novo.

Alice me fez gostar do Natal de novo. Por toda sua expectativa e esperança. É muito bom ver as pessoas mostrarem seu melhor, e não tem problema por ser por algo em troca.

Boas festas!


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