Tosco Pai: as negociações de Alice



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Isso já faz tempo, mas ainda em tempo posso dizer que na minha casa a consciência política nasce com a pessoa.
Alice sabe que sua boca vai ganhar o mundo, já fala desde seus nove meses, aprendeu a falar antes de andar e acho isso muito mais importante.
Um dia estávamos a sós. Esperávamos a mãe vir do trabalho para nosso ritual cama, mesa e banho – não nessa ordem, mas com essas pautas.

– Alice vamos pro banho…
– Ah, pai, deixa eu assistir mais um pouco de TV…
– Não, amor, já passou da hora, ela já devia estar desligada…
– Ah, não, só mais um pouquinho…
– Não, Alice! Banho.
– Pai, olha só, já que tá faltando água em São Paulo, será que eu posso ficar sem tomar banho?

Paro, penso, olho para menina e me rendo a sua boa ideia. Faço isso sem falar nada e tentando disfarçar todo meu orgulho, sorrisos e tudo mais que possa entregar para ela que achei a ideia maravilhosa. Enquanto seguro todo meu semblante, a menina me olha curiosa precisando da resposta, querendo saber se, sim, esta é uma boa ou má ideia.

– Cara, que boa ideia!!

Não consegui segurar por muito tempo…

– Cê achou?
– Sim, mas me diga quantos dias? Todos não pode… Não é saudável, banho é importante.
– Pode ser uns dois dias…
– Dois dias?

Confesso que minha admiração só aumenta, a humildade em promover apenas dois dias me deixa de boca aberta, ela sabe realmente negociar…

– Dois dias? Cara, acho justo, acho que é uma boa iniciativa para economizarmos água.
– Tá, então eu não vou tomar banho hoje…
– Tá bom, e qual seria o outro dia?
– Amanhã…
– Não, filha, assim não dá, tu precisa alternar. Vai ficar dois dias sem banho?
– Sim, você disse que é uma boa ideia…
– Sim, é uma ideia muito boa, mas na semana a gente tem sete dias, tem que escolher uns dias mais separados… Pra não ficar assim, muito fedor…
– Eu não sou fedor!!
– Eu sei que tu não é, mas se tu ficar sem banho por dois dias, tu não vai ser fedor?
– É… Um pouco.
– Então, vamos lá, é uma boa ideia. Só falta decidir quando serão esses dias e, claro, vamos contar pra mãe…
– Tá, mas você conta!
– Não! Conta tu…
– Não, papai, conta você…
– A ideia é tua…
– Mas eu deixo você contar…
– Cara, tu tá com medo?
– E se a mamãe não gostar…
– Eu acho que ela vai gostar, e vai ficar muito orgulhosa…
– E feliz?
– E feliz!
– É mesmo?
– Sim…
– Tá, mas, você conta…
– Mas cara, ela vai gostar…
– Eu gosto mais quando você conta…

Bom, ela estava decidida, eu seria o seu porta voz. Tentei mudar, tentei que ela confrontasse o plenário com suas ideias ecológicas e revolucionárias, mas, não, tem medo que a bancada seja conservadora, que digam que essa coisa de ficar sem banho são ideologias modernas e descabidas, afinal, não vivemos nenhum racionamento de água.

Eu assumi meu novo trabalho. O banho, no momento, estava congelado, esperávamos ansiosos pela nossa chefe de estado.

Um barulho na porta, a chave gira e, sim, a presidenta chega, ela nota em nossos rostos que queremos propor mudanças, que já está mais do que na hora de encararmos de frente os nossos problemas, mesmo que alguns de nós precisem de um porta voz para isso.

– Oi, gatinha!

Quebrei o protocolo.

– Oi, meu amor…

Um beijo, sela a aliança dos nossos partidos, Alice vê como certa a escolha do seu arauto.

– E tu, fófis? Como tá?… Vem dar um beijo na mãe.

Ela dá o beijo, sente que precisa também fortalcer esse elo. Tudo para, claro, aprovar sua nova emenda na costituição e aprovar esse projeto que visa uma ecomomia de água bastante consciente e satisfatória aos padrões do nosso governo.
No ar, há aquele clima de insegurança, o medo de uma ideia com princípios tão importantes para o Brasil, seja mal interpretada pela bancada mais conservadora.

– Que caras são essas? Já tomaram banho?
– Que bom que tu chegou nesse ponto, é que a Alice teve uma ideia que eu considero muito boa, não sei se tu vai gostar, mas eu acho muito importante para o nosso crescimento e, claro, conservação dos nossos manancias…
– Que é?
– Alice decidiu que, devido a eminente falta de água que estamos passando, ela pode ficar dois dias na semana sem tomar banho.

Para nossa surpresa o atual governo nunca foi conservador, era a visão que tínhamos, não a que conhecíamos.

– Que boa ideia!

Esse foi o sinal para que Alice se sentisse à vontade para ela mesma falar do seu projeto. E descorreu muito bem, como água que desce das torneiras, opa, deixa pra lá… Enfim, falou de todas vantagens de ficar sem banho e do quanto seria economizado.

– Tá, mas agora, quais serão os dias?
– Hoje e amanhã!
– Não, Alice, o pai já explicou, tu precisa de dias separados.
– Segunda e quinta
– Tá bom…
– Não, segunda não tá bom, é o primeiro dia de escola, tu vem suja da aula, brinca na areia, não é bom…
– Então sexta e sábado…
– Intervalo Alice…
– Sábado também não é bom, sempre tem uma festa e não pode ir suja pra uma festa.
– Terça?
– Terça é bom. Escolhe outro.
– Terça e domingo?
– Ótimo, perfeito, aprovados os dias!!
– O que é aprovado?
– Significa que deu tudo certo, concordamos, sancionamos, autorizamos!
– Tá, mas todas terças e domingos a gente lava os países baixos…
– Que países baixos?
– A peps e o pops…
– Ah, tá!! Mas hoje eu não vou tomar banho!
– Não, hoje é terça.

Passado algum tempo, após a nova lei, alías, estamos indo muito bem, sentindo que estamos no caminho certo em relação à água, fazendo a nossa pequena parte, já que o governo não faz a maior, caminhamos com destino a um futuro melhor, e também em direção ao mercado, precisamos garantir o nosso jantar, porém Alice veio com uma nova proposta.

– Sabia que eu inventei que agora tem dois dias que eu só como coxinha?
– Não, não tem…
– Tem, sim… É hoje e sábado.
– Não, Alice, essa não vai passar pela assembleia do congresso…
– O que é assembleia do congresso?

Alice, minha filha, tem respostas que eu não sei dar, pois nossa política não é transparente, é cheia de benefícios para alguns e injustiças para outros, mas me orgulho de ti que não gosta de lixo na rua, dá muita importância pra água – embora prefira suco de uva – e sente muitas saudades de um banho de banheira. O importante, minha filha, é que tu sabe dialogar, sabe defender teus pontos de vista, tuas ideologias, e não quer desperdiçar nada, mas acima de tudo, num país chamado nossa casa tu sempre terá voz até porque essa tua voz vem do coração.


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