A nova moda de Alice

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Sempre achei que tinha caído na moda de paraquedas, no entanto, dia desses, enquanto vestia a Alice, percebi que não.

Sempre gostei de combinar as cores, e isso ficou mais nítido quando levei esse senso de harmonização para as roupas dos meus pais.

Lembro que desde de meus quatro ou cinco anos, quando eles iam sair pra jantar ou pra alguma festa, eu palpitava sobre suas roupas, e meus pitacos eram coerentes. Alguns, para minha alegria, eram até levados a sério.

Cresci como um garoto sensível que chorava ao ver Ghost e a versão mexicana de Carrossel, e ainda sabia combinar roupas. Desde os meus oito anos, já não aceitava mais o estilo imposto pela minha mãe, eu queria escolher tanto o que iria comprar quanto o que iria usar.

Na adolescência, depois da morte de minha mãe, esses hábitos passaram a assustar meu pai, que passou a se comportar de maneira muito estranha quando me viu conversando com uma mesma garota por mais de um mês.

Ele passava por mim sempre com um sorriso de orelha a orelha e com uma cara de imenso alívio e contentamento.

Hoje o jogo é outro.

Até os dois anos de idade de Alice, sempre fui seu personal stylist.
Mas, agora, aos quatro anos, ela tem total controle sobre o que fica bem ou não nela. E o que eu sugiro não fica bem. Fato.

– Pai, deixa eu colocar o vestido de princesa?
– Não, aquele vestido é muito leve, sem mangas, e hoje está frio.
– Mas ele é tão legal…
– Eu sei que ele é legal, mas não é pra hoje que está frio.
– Mas eu quero…
– Tá, eu ponho ele, e mais um casaco.

Com esse simples movimento, o uso do casaco, posso mudar o que ela quer vestir, pois nenhum casaco pode atrapalhar, digo, sobrepor o vestido, sempre personagem principal.

– Não pai, eu quero o vestido “com sem casaco”!
– Não vai rolar, vamos colocar esse de manguinha!
– Então aquele ali…
– Mesma coisa, Alice. Está frio, ou um vestido com manga comprida ou vai ser a calça.
– Mas o vestido é tão legal…
– Alice, a gente só vai ao mercado, não vamos a uma festa, é a vida!

Esse argumento é forte, deixa ela braba, o semblante muda, uma sobrancelha fica baixa, a outra bem alta, me dá um olhar torto e sentencia.

– Essa não é a sua vida. É a minha!

Ouvi essa frase na terça-feira, dia que estreou minha coluna. Depois de dois dias, depois de digerir bem o que ela havia me dito, chegou a quinta-feira, com sol e calor. Alice, enfim, consegue colocar seu amado vestido de princesa. Nesse dia não tem aula, apenas uma reunião para os pais.
Vou à escola, enquanto ela brinca, e escuto suas peripécias escolares.
A reunião acaba, voltamos para casa, quinta é dia de pastel.
Estou tranquilo, a tarde está livre.
Porém, o telefone toca.

– Alô!
– E aí?
– Tem preview hoje à tarde, tem que fotografar.
– Hummm, tá bom, mas terei que levar a Alice.

Chegamos na prova de roupas.
Modelo, estilista, stylist, costureiras, toda a equipe.
Ao entrar na sala, a menina tímida caminha calmamente por um papel branco que faz as vezes de passarela.
O diretor de desfiles olha para ela e ordena:
– Desfila aí!
Ela dá mais três passos tímidos, o estilista olha para ela e constata sua timidez.
No quinto passo ela decide correr, ganha a passarela, e voa, pula, brinca, e precisa ser retirada momentaneamente da sala, enquanto o pai termina seu trabalho.

Em casa, antes de entar no banho, a mãe pergunta…
– E aí fifi’s? Quer dizer que tu foi numa fábrica de roupas? Tinha uma passarela lá? Você gostou?
– Gostei mãe, eu andei, andei, andei, depois corri, e parecia que era infinito.

Pois é Alice, essa é a tua vida, e ela deixa a nossa muito mais divertida!

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