Tosco Pai: Osso dos desejos



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Um dia normal, depois de muitas brincadeiras com a melhor amiga, hora de ir pra cama.
A rotina de sempre: remédios profiláticos para a asma que herdou de seu pai, banho, jantar e dentes.
No jantar, acontece o que embala o texto de hoje.
No almoço tivemos purê de batata com cenoura e o velho e infálivel frango de padaria. Ou o pai requenta o almoço ou faz uma coisa mais simples para aproveitar o que ainda resta da sua sexta-feira. Opta pelo simples.

– Vamos de sanduba? Maionese, franguinho desfiado, parmesão e rúcula?
– Sim!! Sandubaaaaa!

O pai então começa seus afazeres. Rúcula já lavada, rala o parmesão, desfia um pouco do frango pra ela. Fica feliz, encontra o jogador, aquele ossinho que fica alojado no peito da ave, e conta para a filha que o vencedor desse jogo tem o direito de fazer um pedido, realizar um desejo.

– Eu quero jogar!
– Que bom, depois do jantar e se comer tudo, jogamos…

Tudo vira chantagem.

– Tá! Eu vou comer tudo!
– Ótimo, então depois a gente joga.

A menina come o primeiro pedaço do seu sanduíche.

– Tá satisfeita? Quer deixar o resto pra amanhã?
– Não! Vou comer tudo mesmo…

Sinal que está bom, ela não está enrolando para comer.
Enfia o segundo pedaço de pão na boca como se ela fosse uma mini-jiboia. Tudo, claro, pra jogar o quanto antes com o osso dos desejos. Com a boca ainba bem cheia larga um…

– Vamos jogar…
– Mastiga primeiro, engole, faz isso mais devagar e já vamos…
– Pronto…

Pego o osso, vou começar uma explicação mas ela pouco quer saber das regras, quer mesmo é ficar com o pedaço maior e fazer o seu pedido. Tento dizer que é melhor ela pegar pela ponta, ao contrario do que está fazendo, pegando na cabeça do osso.
Quando fui dizer…

– Aquele que ficar com o pedaço maior do osso ganha…

Eu sabia que, de alguma forma, ela iria trapacear. Alice não suporta perder, por mais que eu tente ensinar, isso não entrou ainda na cabeça dela..
Ela é eu, e eu também fazia de tudo pra ganhar, principalmente nos campeonatos de botão da rua. Quando perdia, saía com um nó na garganta, que dava um aperto no peito e um embrulho no estômago. Fora a asma, deixei também essa herança horrível do mau perdedor. O aprendizado dessa dói bem mais, por isso tento que ela aprenda comigo, não como eu aprendi.

Mas não será hoje. Pega o osso pelo topo… Tento avisar, mas, claro, ela não me dá ouvidos. Ganho.
Olho nos seus olhos, vejo ela brigar consigo mesma, segurando o choro até não mais conseguir. Dura cerca de quinze segundos sua luta, mas, sim, ela perdeu, e perdeu seu desejo. E eu, Tosco Pai, comemoro, sem prestar atenção no seu queixo trêmulo, ignorando seus olhos brilhantes e o amargor da derrota, apenas comemoro.

– EEEEEEEEEEE o pai ganhou!
– AAAAAAAAA, mas eu queria ganhar, agora eu nunca mais vou realizar meu desejo… Buaaaaaa!
– Calma, guria. Ei, cara, tem que saber perder, não dá pra ganhar tudo…
– Mas eu queria poder realizar o meu desejo e você não deixou…
– Mas é um jogo cara! E eu ganhei…
– Não, mas eu não posso mais realizar meu desejo…

A mãe chega.

– O que houve?
– A gente tava jogando o jogador da galinha e a Alice perdeu.
– Amor, a gente perde e a gente ganha…
– Mas eu não vou mais realizar meu desejo…
– Alice, tu sabe que meu computador estragou hoje, né? E que é muito legal que o meu desejo se realize e eu consiga consertar meu computador… Tu não pode ficar feliz por mim? Por eu ter ganhado? Lembra quando eu tava ganhando uma corrida na escada e tu me segurou pra eu não ganhar? Trapaça. E a Buda? Ela sempre perdeu de ti, um dia ela se esforçou e subiu as escadas mais rápido que tu… É assim, tem que treinar, tentar de novo. Quando a gente perde, aprende com a derrota.

– Mas eu queria poder falar o meu desejo…
– Tu pode falar… Ou tu espera outro dia pra jogar de novo e tu ganha e faz teu pedido de novo.
– Não! Buaaaaaa!!! Eu nunca vou ganhaaaaar! Eu nunca mais quero jogar o osso dos desejos… Eu não vou conseguir…
– Não é assim, Alice…
– Acha outro osso!
– Não tem, só tem um por frango…
– Buááááá!! Tem que ter outro…
– Mas não tem, só tem um desses, é isso que faz desse osso especial.

Nesse momento ela soluça, e tudo que fala fica mais longo, cheio de pausas para recuperar o fôlego.
Segue no período da negação, dizendo que não tem capacidade de vencer outro embate do osso.

– Alice, tu pode esperar um estrela cadente e fazer o teu pedido então, já que tu acha que nunca mais vai ganhar…
– E, amor, isso é só um osso, se você quer mesmo que um desejo se realize tem que mentalizar, pensar muito forte nele, não desistir, pra que aconteça… Pro seu desejo se realizar não depende de um osso ou de uma estrela, mas, sim, de você não desistir dele.
–É, Alice. E tem mais: isso é só um jogo, sabe quando tu brinca de faz de conta com a Lelê e tu diz pra ela “finge que nós somos princesas e o meu pai é o dragão”, mesma coisa, só fingir. Lá atrás, onde não tinha televisão, alguém teve a ideia de pegar esse osso, criar uma disputa e fingir que ele realizaria o desejo do vencendor. Só isso.

Nós como pais fazemos sempre o melhor, tanto a explicação da força de realizar um desejo estar nela mesma da mãe, quanto a minha sobre as pessoas sem televisão que inventaram o osso dos desejos estavam perfeitas…

Então ela perguntou:

– Esse osso é falso?
– Não, ele não é falso…

Claro que se a gente dissesse que ele era falso, tudo teria terminado, no entanto a gente sabe que não é assim que se constrói um caráter.

– Esse osso é falso!!

Bradava a menina.

– É falso!
– Não Alice, não é falso, mas é só um jogo…
– É falso, sim!!

Ela soluça, não tem mais forças, apenas repete pra si mesma.

– Esse osso é falso, eu nunca mais vou jogar esse osso dos desejos, agora quando eu quiser fazer um pedido vou fazer só pra estrela cadente!

Não adianta, ela não se convence, a frustração é grande.
No colo da mãe ela segue chorando, eu desfiando frango, já impaciente, pronto pra gritar, é só a porcaria de um osso e ele não tem mesmo nenhum poder!
Por que eu quis trazer a tona essa brincadeira arcaica?
Por que eu não deixei o osso de lado junto com todos os outros que foram descartados?
No meio do choro, já tentando se acalmar, ela diz:

– Mas eu não vou mais poder realizar o meu desejo de usar um vestido longo, bem longo na festa da Teo…

Agora a mãe abraça a menina…

Ri baixinho, o suficiente para menina não perceber que ela não está rindo dela. apenas da situação.

– Então, pera aí…

A mãe liga o Skype, chama a sua mãe…

– Oi, vovó!
– Oi, oi…
– Vovó, tem aí um vestido longo pra um menina bonita usar no aniversario da Teo?
– Tem…
– Dá pra mostar?
– Sim! Ela ainda não viu?
– Acho que não…
– Então, vou pegar…
– Mas ele é longo? – Pergunta a menina…
– É…

O vestido aparece na tela, preto, todo bordado com fitinhas coloridas. A vovó afasta da tela, põe abaixo da sua cintura, tudo pra provar que o vestido é longo sim.

– Viu, cara, você achou que não ia realizar o seu desejo e a sua vovó mágica fez um vestido longo e lindão pra você…
– Viu, guriazinha…
– Eu não sabia que eu era tão bonita…
– O vestido?
– Não, eu não sabia que eu era tão bonita assim…
– Tu é bonita, e só vai ajudar o vestido que eu fiz ficar bem mais bonito. Um vestido bonito para uma menina linda. Mas ela não é nada se tu não usar.

O choro vai embora…

– Depois eu posso trazer pra São Paulo? Eu queria usar aqui também e ser convidada pra outra festa…
– Mas, cara, tu vai usar o vestido, está convidada pra uma festa, hoje mesmo tu mostrou o convite da Teo e teu nome tá lá… Calma, cara…

Tosco como sempre… Nesse momento a mãe me pede calma…

– Ela disse outra festa Tata…

Volto para o frango, e concentro minha irritação desfiando a ave.
A ligação acaba, o pedido foi realizado, não precisou de osso dos desejos, nem estrela cadente, só de uma avó que trabalha noite e dia sem parar.

– Pai, posso comer mais um frango?
– Cara, tu já jantou, tá na hora de dormir.
– Mas eu queria comer mais um pouquinho…
– Pode, come esse osso especial aqui, é muito saboroso, eu adoro, chama-se cartilagem…
– Eu gostei!!
– Pois é, eu e tua mãe gostamos muito também…
– Quero mais…
– Não dá! Só tem um…


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