Tosco Pai: Paiêêê, conta uma história?



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Dormiu, às vezes parece que nunca vai. Bom, o que eu podia esperar de uma menina que nasceu às 00:51?
Alice não se entrega para dormir.
Nossas brigas começaram aí, foi quando exptrapolou o meu limite pela primeira vez.

Nós pais somos animais difíceis, praticamente irracionais, principalmente quando mal dormidos.
Já contei aqui de uma vez que atirei ela no colo da mãe.
Tivemos outros embates. Às vezes ela me chutava tentando desvencilhar-se do meu colo, enquanto eu, o carcereiro noturno, evitava que ela fugisse da cama dela; em outras, tirava ela da minha, pois ela tinha efetuado uma silenciosa fuga para os meus lençóis.

Uma determinada época, normalmente quando o inverno chega, eu desisto parcialmente das batalhas e me convenço com a seguinte frase…

– Quando ela tiver 12 anos vai querer fugir de mim… Vou deixar que durma aqui…

Mas quando a primavera e o verão retornam, retomamos nossos duelos noturnos.

Em cada fase do sono e da vida usei diferentes armas. Primeiro eu embalava a pequena, segurava seu corpo com minha mão esquerda e com a direita a cabeça, fazia ssssshhhh no seu ouvido e, aos poucos, ela fechava os olhos. Depois de um longo tempo para a humanidade mas curto pra mim, isso deixou de funcionar.

Chega o dia em que descubro a trilha sonora da Pequena Miss Sunshine, pequenos movimentos sinconizados com a música, meu balé paterno e, na sexta faixa, dormia. Era assim que eu fazia e funcionava muito bem para um homem sem peitos, sem leite materno.

Funcionava tão bem, que imaginava uma Alice adolescente, sentada no sofá com seu namoradinho, preparada para ver um filme, de repente veriam um filme indicado por mim…

A Pequena Miss Sunshine.

Tão logo começassem a aparecer os primeiros créditos, Alice já cairia em sono profundo…

Mas como parece que Deus tá vendo, isso também não funcionou por muito tempo.

O princípio do desmame e a proibição do peito da noite marcaram um período de trevas, horror e medo nas nossas vidas.

Alice via em mim não mais um pai, apenas o homem que nega o alimento, o algoz do meu soninho, o sujeito falso que é meu amigo de manhã, mas à noite para em frente de minha porta e decreta o não. Não há outro sentido nas sentanças que não a negativa, o polegar para baixo.

Essa guerra foi forte, acabou comigo, foi quando abordei o chefe supremo e fui questionar tal ordem, em busca de ações diplomáticas que salvassem a relação de pai e filha.

– Bah, gatinha, não dá…
– Que foi?
– Eu fico muito estressado, ela também… A gente tá brigando.
– Tá, ela vai ficar assim, mas só mais uns dias ela esquece, desacostuma…
– Não, gatinha, não quero mais uns dias.
– Então tu quer que eu dê o peito?
– Não. Se é pra ir parando, tirar o da noite… A gente faz…
– Tá, mas o que a gente faz?
– Olha, eu sou bom em ligar a criança, não desligar a criança… Tu fica com a noite!
– Tá bom…

Porém, o problema não era fome. Era um sentimento chamado solidão.
Alice não gosta de acordar sozinha no seu quarto.
Então ,voltamos ao serviço de carceiragem noturna.
Fazendo vista grossa quando nescessário e aplicando a lei quando recebia chutes e pontapés em meu próprio leito.

As técnicas continuaram variando para cada idade. Uma das fases que mais amei foi período que vem depois da pré-história, a invenção da roda, o fantástico carrinho de bebê!

Tem jogo de futebol na televisão às 20:45. Entra em campo, Ricardo pega a criança, leva para o banho, adianta o jantar, veste a criança, coloca ela no carrinho, desce o elevador, dá uma volta no quarteirão, olha o relógio, faltam 5 minutos, entra no elevador, olha para a criança ela dormiu, ela dormiuuuuuuu. Uma jogada incrível do pai usando o carrinho.

Também fiz uso dele para ir ensaiar com a banda. Marcava o ensaio às 22 horas, fazia toda rotina dela, 21:15 saía com ela e me dirigia até o Cafofo e, chegando no endereço combinado para fazer punk-rock, a criança já estava dormindo e não acordava com o som pesado da Heleninha Hoitman And The Punk Tosko Full Glass Band Project.

Mesmo com frio, chuva (não muito forte), usava o valente carro com sua super capinha de plástico que protegia ela e toda minha culpa por sair com ela em tais situações climáticas.

No entanto, ela cresceu e o carrinho não. Precisávamos urgentemente de outra tática.

Me desfiz do carrinho e não tenho carro, Alice já dormiu no táxi, mas eu não pagaria um táxi toda noite pra fazer minha filha dormir, por mais tentadora que fosse essa ideia.

– E aí vai pra onde?
– Olha, eu vou lhe dar R$ 6,00, acho que ela dorme com 6…
– Mas é bandeira dois…
– Tenho R$ 20,00… Vamos ver até onde vai…

Pensando nisso, contar histórias antes de dormir acabou sendo a melhor solução.
Além de econômica, acaba um pouco com o medo da solidão, dá-se a devida atenção à criança e ensina ela a dormir sozinha, coisa que a mãe vem tentando ensinar há muito tempo e teria conseguido com muito mais facilidade se não fosse casada com um tonto que faz todas vontades da filha…

Enfim, achamos a solução, e Alice ama as histórias, ama tanto que quer contar junto. Mas, no fundo, acho que tudo é uma tática pra ela ficar conversando e mais uma vez não se entregar ao sono. Toda noite, ela pede uma história, eu conto e ela fica colocando palavras, então eu pergunto:

– Alice, tu quer contar?

A frase virou um clássico de todas nossas noites. Não achei correto eu cortar a criatividade dela, afinal, ela só quer participar. Mas ela fica mudando todo o enrredo e assim eu me perco na trama, inventar uma história é difícil. Ela muda também o figurino e até o nome dos personagens. Esses dias, a história foi sobre as sete princesas com as sete cores do arco-íris. E todas têm o nome das colegas dela e cada uma um poder. Que saudades do carrinho…

E hoje, não foi diferente…

– Pai, conta uma história.
– Era uma vez uma menina linda chamada Peru Felpudo…
– Ah, para pai!! Não é, é Alice!!!
– Mas quem disse que é tu? É outra história…
– Ah! Tá bom!! Então conta essa história…
– Agora vou contar outra…
– Tá…
– Era uma vez uma linda borboleta azul chamada Alice…

Sorri e complementa…

– E ela tinha poderes…
– Eiiii!!! Quem disse que ela tinha poderes?
– Ela tinha poderes…
– Não!! Essa é minha história. Tu quer contar a história ou quer que eu conte?
– Não, pai, conta você… – pausa dramática e fala sussurando – Mas só coloca isso…
– Pô, cara, tu quer sempre roteirizar as minhas histórias…

Engraçado, guria, escrevendo aqui percebi isso: tu sempre quer acrescentar falas, cores, poderes e tudo mais nas minhas histórias.
Deve ser porque desde de o dia que tu passou a fazer parte da minha ela ficou muito melhor e mais divertida.


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