Tosco Pai: palavras, palavrinhas e palavrões

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– Pai, desgraçado é um palavrão?
– Olha filha, é uma palavra forte, ofende. Sim, é um palavrão.
– E puta merda?

Cuspindo toda pasta de dente no espelho. Me recupero.

– Nossa! Onde tu aprendeu essa?
– Um colega meu, o João Pedro, falou.
– Caaaaara… Esse é. E bem grande.
– É cabeludo?
– Muito.
– Pai, porque criança não pode falar palavrão?
– Não é que não pode. Pode, mas não combina, não fica legal. Tem coisas que ficam legais em adultos, não em crianças. Penso isso do palavrão.

 

Meu tio Chatô – esse era o apelido, seu nome: Chateubriand – odiava palavrão em boca de criança. Achava vulgar.

Minha mãe amava esse tio, e pedia, toda vez quando ele nos visitava ou quando iámos visitá-lo, que a gente por favor controlasse um pouco a boca. Muitas vezes, desde a primeira infância, essa sempre foi ameaçada com pimenta.

Nos anos 80, os palavrões corriam soltos.

Quando eu estava lá com meus doze para treze, tinha um primo pequeno, o Gabriel. Um dia, eu e outro primo da minha idade falávamos palavrão tão naturalmente como respirávamos, estávamos na rua, e o pai do Gabriel – que também era meu primo, aliás -, educadamente, pediu que parássemos com os xingamentos. Ignorei o pedido. E fiz mais: polemizei.

 

– Mas e aí? Quando ele for grande? Quando tiver um colega xingando ele? Vai falar o que? Flores? Obrigado?

 

O pai de Gabriel por certo foi muito educado. Deve ter perdido algum tempo tentando me explicar, colocar algo na minha cabeça de pré-adolescente, não conseguiu, por motivos óbvios.

Naquele dia me achei importante, me achei sagaz, dei uma resposta quase de adulto para um dos meus primos mais velhos. Que lição! Um grande passo para minha incipiente auto-afirmação. Embora estivesse errado, comemorei.

 Quem eu era para saber o que era o melhor para Gabriel? E como eu poderia prever que Gabriel não aprenderia a se defender sozinho e aprender seus própios palavrões na vida?

 

– Pai! Por que você é adulto e não fala palavrão?
– Alice, eu falo palavrão, talvez não muitos na tua frente, mas falo bastante.
– Eu não escuto.
– É que tu tá sendo bondosa comigo. Tu sabe que eu falo.
– Você fala muito saco.
– É. Mas vou evitar, tá bom? A gente fala palavrão quando alguma coisa dá errado, dá uma martelada no dedo e dói, e parece que falar palavrão alivia a dor.
– Merda é o que?
– Merda é um nome vulgar pra cocô. É um nome que ofende. Pelo menos eu acho que incomoda menos ser chamado de cocô do que merda.
– Entendi.

 

O papo terminou aí, não saberia o que responder se ela me perguntasse: “Pai o que é puta?”

Afinal, o palavrão que começou toda nossa conversa foi “puta-merda”.

Tentaria algo mais ou menos assim:

“São mulheres que acharam um nicho de mercado na carência afetiva, uma oportunidade de trabalho na depedência masculina, viram que estes pagavam um bom dinheiro em troca de amor. No entanto, a hipocrisia masculina, o machismo, a religião e a culpa transformaram essa profissão em algo inferior, vulgar e, sendo vulgar, vira um palavrão, daí chamam de puta o que poderia chamar de prostituta.”

Complexo. Não sei mesmo explicar. Ainda bem que ela só focou na merda.

 

No entanto, certo dia o que foi questionado foi o uso do “mano”, o que, claramente, não é palavrão, é uma gíria, que escapuliu do português bem falado da menina de seis anos, pré alfabetizada. Considerado um certo desvio na educação por quem questionou.

– Mano? De onde esse mano?
Fui indagado.

Não encontrei problemas. E achei inúmeras respostas.

O mano vem da escola, vem da Gessy, nossa doce amiga, que ainda por cima deixa nossa casa brilhando, vem do pai que tá brabo com a mãe…

 

– Mano, tu sabe que eu não gosto de tirar o jantar, chamar pra comer e ver a comida esfriar na mesa, sozinho.

 

Vem da mãe brava com o pai.

 

– Mano! Tô te falando desse condomínio desde o dia primeiro, o vencimento é dia 5, claro que no dia 7 não vão aceitar.

 

Vem dos pais na mesa de café comendo misto-quente feito na chapa enquanto a filha dramatiza com uma fruta para comer.

 

– Mano, mas tu enrola hein, Peru? Come essa fruta!
– Mas eu não gosto de fruta mole!

 

Da onde vem esse mano?

Mano vem de tudo que é lugar.

 

Alice agora multa as pessoas que falam palavrões, sempre a lembro que são adultos falando.

Um dia ela me chamou de vacilão.

 

– Do que tu me chamou?
– É… Humm. Pai, é que vi no Apenas um Show. Foi o Rigby que falou pro Mordecai.

 

Um dos meus desenhos favoritos, assistimos juntos. Como proceder?

 

– Ah! Mas o Mordecai gostou quando o Rigby chamou ele de vacilão?
– Não, acho que não.
– Então, quando ofende, acho que é palavrão.

 

Assunto resolvido, em partes, porque ele sempre volta.

Almoçamos e um amigo falou.

 

– Puta merda, isso tá muito bom.
– Isso é palavrão.
– O Fábio é adulto, Alice.
– Ah, tá. Mas porque eu não posso?
– Já disse que tu pode, só não fica legal. Tu pode falar palavrões de dublagem, em vez de “popô”, “pops”, tu pode falar traseiro.
– Traseiro? O que é traseiro?
– Bunda!
– Hahahahahahahahahahahahaha! Bunda! Hahahahaha! Posso falar bunda?
– Pode!
– Hahahahahahahaha, bunda.

 

Realmente, bunda é uma palavra engraçada. Ela riu tanto e gargalha toda vez que fala. Ontem voltando da escola, ela lembrou da palavra e riu novamente.

As palavras, as palavrinhas e os palavrões também. São bem-vindos.

O importante é pegar todas elas, juntar uma a uma e usar sempre quando for a hora.

Comunicar e se fazer entender é o mais importante.

Te digo, minha filha, tuas palavras miúdas dizem muito mais aos corações do que os palavrões. Por hora, você não precisa deles.


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