Tosco Pai: papos retos



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– Pai, por que eu não posso mais tomar banho de banheira?
– Por que estamos sem água filha, e o banho de banheira seria um desperdício!
– Pai por que a Helena pode tomar banho de banheira?
– Sei lá, quem sabe lá eles tem um reservatório de água… E ela não acaba.
– Pai, você deveria construir um reservatório de água!
– Eu deveria construir? O Alckmin que deveria fazer um resevatório…
– Pai, pai! Você tem que construir, o Alckmin não faz nada. Não vai fazer…

Assim são os cinco anos, diretos e retos, sem enrolações.
Tenho andando assustado com tamanha articulação: sabe de tudo, o que não sabe inventa. E quem não inventa?
Aguenta.

Confesso que fácil não anda – nunca foi –, no entanto, essa dificuldade me ajuda a lidar melhor com a vida. A minha! Nela há uma praticidade que eu nunca tive.

Saímos do espetáculo Rei Leão, foi lindo, mágico, só não acho melhor que o desenho por um pequeno detalhe, a animação tem Jeremy Irons no elenco. Um dia cheio. Do espetáculo para o aniversário da amiga Clara.
Alice e Clara estão construindo uma bela amizade, esta baseada muito na independência de ambas. Clara já posou em nossa casa e Alice na dela, as duas sem nenhum medo, nenhuma insegurança por ficarem longe dos pais.

Nos cinco anos de Clara o tema é o dia das bruxas. Alice vai como uma bruxa, toda de preto e com saia longa feita pela avó. Clara espera seus convidados, vestida de Elsa, a fantasia que tem sido a maldição da maioria dos pais.
Comigo não haveria de ser diferente.
Entre uma cerveja e uns cachorros quentes elas trocam de roupa. Agora Alice está toda de azul e canta Let it go, Let it go.

Três de outubro de dois mil e quatorze, deixamos a festa de Clara, são quase 20 horas. Está quase começando a festa da democracia, precisamos saber quem será nosso governador e quem estaria concorrendo à presidência da república, que já apontava um segundo turno.
Corremos, entramos num táxi que, para o nosso bem, não correu, e fomos para casa de Katiane, tranquilos para acompanhar o resultado.

A festa da democracia estava chata e a menina de vestido azul dormiu. Let it go – elas não destrocaram as roupas.
Com medo e pelo calor do vestido com tecido sintético, a mãe tira o vestido e deixa a menina dormir de maneira confortável.

Segunda-feira, as redes socias amanhecem em chamas.
Agora definiram os lados e as ideias já são separatistas.
São Paulo continua seca, sem chuvas, e com o mesmo Governador.

– Pai, porque o Alckmin é mau?
– Bah, filha, eu não sei… Ele é mau porque não é bom no que faz. Se não é bom, é mau. Eu acho… E ele não pode deixar uma cidade desse tamanho ficar sem água, né? E mentir… Omitir.
– É! Na Argentina tem água!

Começa meu pesadelo.

Não. Não me refiro a política, tampouco por ela achar que na Argentina tá melhor.
Vivemos quatro dias incríveis lá e é impossível que não pense assim. E lá tomou banho de banheira todos os dias.

– Pai, cadê meu vestido do Frozen?
– Não é teu, é da Clara.
– É, mas ela me emprestou…
– Não tá no teu quarto?
– Não…
– Então tá na Katiane…
– Cê liga pra ela pra pegar?
– Ligo…
– Vamos pegar agora…
– Agora nós vamos pra escola, depois eu ligo e pego de tarde.
– Tá, mas cê liga!
– Ligo…

Não liguei, esqueci, só percebi quando fui buscá-la…

– Pai… Cadê meu vestido do Frozen?
– Oi, né…
– He, he… Oi. Cê pegou meu vestido?
– Bah, cara, o pai esqueceu…
– Ah, paaaai!
– Cara, desculpa, amanhã eu pego…
– Não esquece…
– Não.

Terça-feira. Acordei cedo, pedalei, corri, fiz o café, ela acordou.

– Pai, cadê meu vestido da Elsa?
– Eu não liguei ainda, mas o pai vai ligar pra Katiane, já disse.
– Então liga…
– Ela deve tá dormindo, ou já no trabalho. O pai vai ligar. Vamos pra aula.

Esqueci de novo. O curioso é que só lembro quando estou virando a esquina da escola.
Vou tomar outra bronca e com razão, diz que vai fazer, espera, espera, e não faz.
Me vê ao longe…

– Paaaaaaaaaaaaaaaai!!!
– E aí, cara? Beleza?
– Sim! Pegou meu vestido da Elsa?
– Bah, Alice, esqueci…
– Paiê?
– Cara, desculpa.
– Liga pra ela!
– Cara, ela tá no trabalho agora, não vai poder me entregar, vai chegar tarde, quando ela chegar tu já vai tá dormindo…
– AH! Pai!
– Amanhã, sem falta.

Quarta-feira.

– Alô, Kates?
– Oi, Tosca!
– Te acordei? Pode falar?
– Pode, tô me arrumando pra sair…
– Cara, por favor deixa aí na portaria o vestido do Frozen? Assim, pelo amor de Deus. Tipo me ajuda, a guria tá me enlouquecendo por esse vestido, pergunta todo dia sobre ele, não esquece tá?
– Tranquilo, Tosca, deixo na portaria com as suas gaitas…
– Gaitas? Bueno, são do Moika, mas não esquece o vestido, melhor, lembra do vestido.

Deixei ela na escola e aproveitei para já buscar o vestido. Quando acordou, já havia me cobrado, e eu já havia feito uma nova promessa, com a diferença de que agora eu estava cumprindo.
Peguei, estava em meu poder. Agora, quando ela perguntar vai ouvir.

– Paiiiiiiiiiiêêê!!! Cê pegou minha fantasia?
– Não é tua é da Clara…
– Pai, eu sei que é da Clara, mas ela me emprestou… Pegou?

Agora era o momento, eu ia responder, dar a alegria que ela esperava desde segunda-feira.

– Bah, o pai esqueceu!!!
– Aaaaaaah, paiê! Você sempre esquece, vive inventando desculpa, sempre diz amanhã e fica enrolando…

Congelei!
Engoli seco, morri um pouco. Eu seguia em pé, mas minha moral, não. Essa escorria pela sarjeta diante dos meus olhos úmidos.

Olhei e, no momento, vendo toda aquela eloquência e toda a fidelidade em me descrever, engoli meu choro. Só pensava que se ela soubesse a palavra “subterfúgio” a bronca teria sido: “Aaaaaaah, paiê! Você sempre esquece, vive encontrando subterfúgios…”.
Me veio a certeza que ela vai falar assim quando tiver seis anos. Meu olhar para ela era de “por favor volte a ser criança”. Ainda em choque, tento me explicar:

– Não, Alice! Desculpa, o pai só tava brincando. A roupa tá lá em casa, em cima da tua cama, o pai só queria fazer uma surpresa. Desculpa…
– Tá, pai… É que você é “enrolão”… Eu gostei da surpresa.

Sim, tu pode ter gostado, mas e eu? Pensei em nunca mais repetir isso.

Agora, à partir dessa quarta-feira, dia 08/10/2014 a roupa da Elsa, do Frozen, nunca mais sairá do seu corpo. Será parte dele.
Acorda, coloca o vestido, fica umas duas horas com ele, na escola só pode fantasia na sexta, coloca a roupa da escola, volta dela, coloca o vestido novamente e espera ansiosamente pela sexta-feira, onde poderá mostrar a roupa para todos seus colegas.

Segunda, treze de outubro, o ritual se repete.

Terça, quatorze, aniversário do Schröeder, tenho duas pautas de tarde, não poderei buscá-la na escola, aciono o tio Moika.

– Alô! Fernanda, tudo bem?
– Sim…
– Oi, é o Ricardo, pai da Alice…
– Oi, tudo bom?
– Tudo. Olha só, um amigo meu, o Renato, vai buscar a Alice. Ela vai chamá-lo de Moikano…
– Moikano?
– É. Ou Moika. Pode entregar pra ele.
– Tá. Obrigado por avisar.

Lucia já havia recomendado ao Moika que levasse ela para o aniversário do nosso querido amigo Schröeder e não deixasse ela usar o vestido do Frozen. Principalmente não perdesse para uma menina de cinco anos na hora de argumentar. Que fosse forte.

– Moika!
– O que, Alice?
– Olha só, eu vou fazer cocô.
– Tá bom, legal Alice…
– Mas eu não sei me limpar…
– Opa, entendi! Estamos aqui pra isso né?
– Mas eu vou fechar a porta um pouco. Por causa do fedor… Mas quando eu chamar você vem.

Esse diálogo foi relatado, porém, eu presenciei a cara de espanto de Moikano enquanto me contava o acontecido, aliás, deve ter sido a mesma que fez para a menina no momento em que ela planejou toda a ação.

Terminada a evacuação. Desculpem, não achei termo melhor, hora de decidir a roupa que vai no aniversário.

– Eu vou com o vestido do Frozen!
– Não, Alice. Acho que esse não é muito legal pra hoje. Tá calor e olha como ele é quente.
– Deixa eu ver…

Colocou o vestido e olhou para Moika.

– Viu, já estou com frio…

Parado, boquiaberto, olhou e decidiu que era melhor não argumentar. Afinal, que argumento derrubaria o “não estou com calor e sim com frio porque vesti a roupa do Frozen”? Contra fatos não há argumentos. Correto?

Então, Moika e Alice foram felizes para festa.

Let it go, let it go…

Quando cheguei na festa, ela já tinha dormido. Estava em cima de duas cadeiras que improvisavam uma cama, deixei minha mochila do seu lado, dei um beijo e fui confraternizar.

Ouvi tudo que aprontou nesse dia que pouco nos vimos.
Tudo que disse, o que quis e não quis comer, sobre o que quis vestir e qual sapato combinava.
Cresce aos olhos de todos, cresce muito mais quando coloco no meu colo e vejo que quase nem cabe ou quando me exige mais forças para subir escadas com ela adormecida e deixá-la em segurança na cama.

Falando em forças, a que tenho que fazer com meus pensamentos para tentar acompanhar o diário crescimento dos seus argumentos é imensurável.

Let it go…


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