Tosco Pai em Paris: nous sommes tous Charlie, nous sommes une famille



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A primeira coisa que escuto de manhã é…

– Não vamos no aquário do Trocadeoro, vamos num em Porte Doreé, é mais barato, o outro vai dar 50 euros, mais comida, esse de Porte Doré dá uns 15, a gente já curtiu aquele pequeno da Cidade da Ciência, vamos num médio…
– Sim…

Claro que sim, ela é o norte, o sul, o leste e o oeste. Ela é uma bússola. Impressiona. Parece conhecer Paris há bem mais tempo do que diz. Sabe tudo de mapas, o que não sabe procura. Achou um aplicativo, o Cittymapper, ali estavam todas as respostas das perguntas que eu nunca me fiz, mas ela faz, sabe onde quer ir, como quer ir e com quem quer ir. É mais fácil ela saber isso visto que segui las bottes jaunes por toda Paris. Meus olhos iam ao céu, desciam, deslumbravam a arquitetura, admiravam as lindas pessoas, miravam Alice e acabavam sempre no chão da cidade luz, de volta para las bottes jaunes.

– Ce trés joli las bottes jaunes…

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Disse nossa simpática vizinha madame Fouishon ao nos encontrar na saída de casa quando rumávamos para o metrô. Eram 12 horas, quase 13, brigávamos um pouco, falávamos da dificuldade familiar, bem maior em mim, de acordar cedo, teríamos que nos esforçar mais, principalmente eu.

Ela nos orienta, me acha lento, faz sempre uma piada comigo, diz que me amarro para sair, sou enrolado, e manda uma foto do cantor Daniel no meu celular. Não sabe quem é? Aquele cara que canta… “Eu me amarrei, eu me amarrei…” Concordava, balançava a cabeça, refletia, nem argumentava, ela tinha razão, sou amarrado, enrolado, fumávamos a caminho de Botzaris, nossa estação.

Outra coisa passou a fazer parte do meu cotidiano além de seguir botas amarelas. O tabaco. Voltei a fumar.

Alice nesse passeio já estava habituada com o meu novo mau hábito, afinal, eu voltei a fumar num 28 de dezembro, estamos em 09 de janeiro, dois dias depois do atentado a redação do Charlie Hebdo. Alice não me poupou da pergunta…

– Pai o que é isso?
– Cigarro…
– Você fuma?
– Só quando atravesso o Altântico.
– O quê?
– Só em Paris meu amor, só na Europa.

O hábito ruim tinha chegado para ficar. Tentei emendar, justificar…

– O cigarro é o chocolate do adulto…
– Quê?

– Não diga isso Tosca…

Alguém me alertou… Depois de um tempo, voltei a me justificar.

– Alice, quando o pai diz que o cigarro é o chocolate do adulto ele está falando uma grande bobagem.
– É? Por quê?
– Bem, o que o pai quer dizer é que o cigarro é porcaria. Tipo comer muita bala. Não é legal, nem saudável… A gente gosta mas não é assim tão bom.
– Eu quando crescer não vou fumar e nem tomar Coca-Cola.
– É, o pai não toma mais Coca-Cola, gosta, mas não toma…

O cigarro acaba, entramos na estação, Lucia sabia exatamente onde íamos, tinha pesquisado tudo no aplicativo já citado. O trajeto seria uma curta viagem de metrô até a estação Pére Lachaise e depois um ônibus que nos levaria até Porte de Vincennes, no aquário.

Andamos, chovia pouco, Alice tossia. Dia cinza, dia estranho, não o cinza que estávamos acostumados, o clima também estava um pouco estranho entre a gente, a cidade estava alerta, em todo lugar minha mochila era revistada, não haviam passado 48 horas do atentado… Rua abaixo, rua acima e pela primeira vez as bottes jaunes estavam perdidas, sem direção. Procura, olha seu celular, pega o meu. Olhava nos dois e nada.

– Precisamos achar um ponto de ônibus…
– Por que a gente não vai pro metrô?
– Porque tem que ser ônibus, Alice…
– Mas tá chovendo, tá frio, a gente não precisa ficar andando na chuva. Eu tô cansada.

Alice já esgotava o pouco da paciência que ainda tínhamos. Tinha bons argumentos, porém, já não tínhamos ouvidos. Lucia tinha um caminho, um trajeto, um roteiro. Achamos o ponto de ônibus, lado oposto ao que procurávamos, já carregava Alice em meus ombros, Lucia carregava nós dois, as bottes jaunes não se cansam. No ponto de ônibus descobre…

– Não, não é aqui.
– Onde é?
– Vi errado, na verdade eu pesquisei ontem de noite. Ele meu deu o bus de nuit, desculpa…
– Desculpa o quê?
– Nada, é que ele me deu no aplicativo uma rota noturna, não vai passar a essa hora.

Podemos ir de metrô descer aqui na Gambetta e depois só pegar um trem de superfície em Porte de Bagnolet.

– Tá bom.
– Desculpa…
– Gatinha, para, se não fosse por ti a gente nem estaria em Paris. Tranquilo meu amor…
– Viu eu disse que a gente tinha que ir de metrô.
– Sim, Alice, tu é bem esperta.

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Dos pequenos mau humores do dia a dia ao eu te amo em segundos, era assim que tinha que ser, unidos, na alegria e na tristeza, no caminho ou fora dele, juntos é bem mais importante. Saímos debaixo da terra e agora esperávamos o trem, seriam apenas duas estações, Marie de Miribel, Porte de Montreuil e desceríamos em Vincennes. Esse dia não estava muito bom para roteiros, em Marie de Miribel ouvimos a orientação que partiu da cabine do motorista.

Demander à tous qui descendent dans la station Montreuil. Ce train ne suivra pas leur voyage à la Porte de Vincennes, une opération de police se déroule sur place. Se il vous plaît descendre tout les passagers.

Não entendemos tudo o que nos foi dito, entendemos a mensagem. Isso era suficiente. Estávamos numa zona perigosa, num momento importante e nem um pouco tranquilo, já estávamos vivendo um momento histórico em Paris, mas não queria fazer parte dessa história em particular. Esperava o bom desfecho, só queria sair dali. Comecei a pensar na estratégia caso um terrorista aparecesse. Primeiro pularia em Lucia e direcionaria ela para Alice, colocaria meu corpo na frente do delas e me arriscaria primeiro ou, quem sabe, gritaria para Lucia correr e correria com Alice no colo…

– Gatinha, vamos aproveitar esse momento e voltar pra casa? Fazermos as coisas por lá. Ver os nossos celulares, precisamos reativar nossos números…
– Tá, gatinho, olha, ali tem um parque, a gente come algo e vai pra casa, tem sinal de wi-fi, a gente acha o caminho pra voltar.
– A gente não vai mais no aquário?
– Não, Alice.
– Por quê?
– Porque sabe aqueles homens maus que a gente te falou…
– Sei… O que eles fizeram?
– Eles mataram umas pessoas… Aí a polícia tá por aqui, porque acha que eles estão se escondendo aqui…
– Ei, um parquinho! Posso brincar um pouco ali já que eu não posso ir no aquário?
– Pode, Alice…

Enrolei um cigarro. Olhávamos para pequena enquanto fumávamos, com o cigarro pela metade…

– Bonjour monsieur, ça prend de quitter le parc va fermer pour l’opération de police en Porte de Vincennes.

O parque vai fechar, mais uma vez deixamos nossos planos de lado. Fico mais paranóico. O barulho das sirenes e helicópteros me apavora. Outra vez imagino o que devo fazer nessa situação. Crio a mesma cena. Alice no meu colo, protejo todo seu corpo e corro em direção de Lucia para protegê-la até entrarmos no metrô.

O metrô também gera um desatino. No dia 07 de janeiro evitamos ele, usamos só o ônibus às 15 horas para uma sessão no planetário da Cité des Sciences & de l’industrie, nossa segunda casa. Depois voltamos a pé, tentando achar um ponto de ônibus, mas nada de transporte público. A caminhada foi tranquila, mas a cabeça não estava.

Nove de janeiro, um caso diferente. A gente só queria sair de Montreuil. Eu, pelo menos, mas não as deixaria ali, estava com os olhos esbugalhados, parecia uma coruja, olhava qualquer canto de rua e pessoa, escaneava todo perímetro. Entramos no metrô e meus olhos aumentam. Não tinha iris, só pupílas. Rastreava o espaço, lia todo ambiente, o silêncio só quebrado por Alice que queria entender o que estava acontecendo.

– Por que a gente desistiu do aquário? Quem são esses homens maus? Por que esses helicópteros e sirenes?
– Calma, amor…
– Por que a gente teve que sair da praça…
– A gente já conversa Alice!
– Vamos pegar a 5 e descer na Laumière ou vamos pra Porte de la Villette?
– Villette vamos na Cité, pra nossa casa.
– A gente vai na cidade das crianças…
– Acho que sim, Alice…
– E os homens maus vão pra lá? E a Polícia?
– A gente já conversa Alice…

Chega o metrô. Achamos nossos lugares, ela sempre prefere o colo da mãe.

– Por que eles não conversaram?
– Quem, Alice?
– Os homens que são maus… Como é que eles se chamam mesmo?
– Terroristas
– Isso, os “terra-oristas”…
– Porque eles são tão maus meu amor, que eles não querem conversar, eles não gostam de conversar…
– Mas por que eles mataram as pessoas?
– Eles não gostaram do desenho que eles fizeram, da brincadeira que eles fizeram…
– É, mas quando eu não gosto de uma brincadeira que a Maria Clara ou o Pedro ou George ou a Helena ou a Nina ou a Antônia fazem, eu digo “para, não gostei”, eu não bato em ninguém…
– É, amor, eles podiam ter feito isso, mas não fizeram, porque são muito maus…
– Mas, mãe, se eu pegar então e ajudar a polícia e falar pra eles conversarem…
– É bem legal, filha, mas nesse caso é melhor a gente ficar quietinho. Deixar que a polícia resolva…
– Mas eu posso ajudar, eu também sei golpes de karatê…
– É, filha, mas lembra que o pai disse uma vez, tem ajudas que a gente chama de “muito ajuda quem não atrapalha”…
– Mas eu não vou atrapalhar.

Chegamos no destino, Porte de la Villelle, assim como o lugar era o de sempre o almoço também, um delicioso e barato Kebab, a familía gastava pouco e ficava bem alimentada. No restaurante, vimos toda movimentação policial onde estávamos. Amedy Coulibaly atacou um supermercado kasher da rede Hypercacher, no bairro de Porte de Vincennes. Ele fez várias pessoas reféns e matou quatro das vítimas. Todo mundo estava horrorizado, os árabes donos do kebab, indignados, pois esse atentado fere a todos. Pagamos nossos 11 euros pelo almoço e saímos. Antes de entrar no museu, no chão encontro um adesivo, “je suis charlie”, me abaixo, pego e colo no meu celular, afinal, não concordo com as mortes, e acredito que piada a gente combate com piada, não com fogo.

Já dentro da Cité, onde sempre havia algo novo a ser explorado, vimos uma exposição sobre mobilidade urbana, mais um pouco do aquário e logo que o sol caiu voltamos pra casa. Nesse dia, a cozinha do apartamento seria minha, passamos no mercado, compramos o jantar. Os dias seguiriam e o assunto não mudaria, os franceses, que não são muito de conversa, passaram a querer discutir, entender, buscar explicações, falar em cada esquina sobre Charlie. Foi assim em outro kebab, num sábado, quando me perdi do meu grupo e acabei almoçando sozinho. Um rapaz tentava falar comigo, perguntava muita coisa, queria minha opinião, e eu só conseguia responder…

Ce est terrible…

Ele se empolgava, falava mais, e eu sem saber o que dizer emendava com um…

– Pardon, je ne parle pas français, je suis brésilien…

Domingo, 11 de janeiro, a cidade está pronta para se manifestar, para dizer “não queremos mais isso”, Paris quer limpar a ferida. Saímos em direção à Place de la République, o metrô estava aberto, porque era para todo mundo estar na praça. Um mar de gente nas estações, o mesmo mar nas ruas. Estávamos no início em 6 pessoas – Denis, seu filho Henry de 10 anos, Simone, Lucia, eu e Alice, com cinco anos, marchando por uma liberdade que ainda nem conhecia direito. Encontramos mais uns amigos, e a turma foi ficando maior, todos com os mesmos objetivos, ir até a République, fazer parte da história e dizer basta de violência. Todos estavam muito encantados com Alice e diziam.

– Vous êtes un enfant très courageux!

Na marcha, tinha ricos, pobres, direita, esquerda, negros, brancos, pardos, pessoas com as mais aparentes diferenças, porém todos pedindo igualdade, fraternidade e principalmente liberdade.

Quando chegamos na praça, as crianças estavam ali mais empolgadas com os cookies e batatas chips, eu fotografando, não parava um segundo, o Charile nesse dia contava com mídia colaborativa, e eu colaborei. Tive uma foto minha publicada no instagram @charliehebdo com a seguinte legenda, “photo de Ricardo Toscani, il est brésilien #ilestcharlie”. Lucia ouvia as notícias, o número de pessoas, quais estadistas já haviam chegado. A praça cada momento recebia mais gente, o frio a cada minuto ficava maior, ouviamos aplausos, todos estes destinados a polícia, o que me encantou muito, eles não abusam do poder que têm, protegem os cidadões.

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Nesse dia, dois jovens aparentemente de vinte e poucos anos subiram numa árvore, enrolaram seus cigarros (o cigarro em Paris é muito caro, fumar o tabaco enrolado é mais rentável para quem tem o vício). Esses jovens, embora não incomodassem ninguém, ofereciam certo risco aos que estavam embaixo. Vi um grupo de polícias chegando, eles novamente foram aplaudidos. Fiquei observando a cena, um policial olhou pros meninos em cima da árvore, eles olharam de volta para ele, essa troca se repetiu e, sem nenhuma truculência, os rapazes desceram da árvore, entenderam o recado, a polícia continuou onde estava e os jovens acenaram com a cabeça e foram para um outro lado. Sorri.

A noite caiu, nós acabamos não saindo do lugar, não marchamos e o frio nos venceu. Decidimos voltar pra casa. Caminhávamos em sentido contrário, indo até a casa de uns amigos de Denis. Eu conseguia ver o quão democrática era essa marcha, bandeiras vermelhas e azuis caminhavam juntas, sem palavras de ódio, todos ali pediam por tolerância, e todos ali colocavam ela em prática, toleravam e respeitavam quem estava ao lado, a frente e atrás.

O domingo seguiu cheio de homenagens na televisão… Algumas até embaraçosas, que fariam os sátiros cartunistas corarem de vergonha alheia, porém, claro, de onde estivessem agora esses homens, com certeza estariam divertindo-se com as homenagens de quem muitas vezes virou as costas para a publicação independente e quase sem dinheiro que brincava com o Deus de todos.

Os dias tem que seguir e os franceses querem esquecer, ou melhor, virar a página. Esquecer ninguém se atreve, a ferida foi forte. Mas precisam ir adiante, e isto foi o que me impressionou numa terça feira, depois de acompanharmos Simone, nossa anfitriã, até o consulado do Brasil e assinarmos como testemunhas documentos que atestam sua permanência no país. Fomos até o Grand Palais, almoçamos juntos. Simone voltou pra casa para estudar e nós saímos para passear. Sem muito destino, chegamos novamente na Place de la République e lá estava o monumento que no domingo só vimos ao longe, cheio de pessoas. Nesse dia, só haviam sobrado as homenagens e alguns voluntários. Paramos para fazer fotos, turistas que somos, e ver de perto o que não tínhamos visto no domingo. Percebi com meu francês iniciante que estavam recrutando pessoas para ajudar a limpar o monumento, recomeçar, seguir a vida. Larguei a câmera, achei uma pá azul e fui atrás de qualquer pessoa que estivesse com uma vassoura. Aí veio Alice com sua mãozinha pegando de mim a pá e perguntando…

– Posso ajudar?
– Pode, pequena…

Vi minha filha tentado a qualquer custo ajudar, mesmo sem forças para limpar toda cera de vela do chão, porém com uma vontade imensa de fazer o que estivesse ao seu alcance para melhorar a cidade, o monumento. Com suas mãozinhas pequenas retirou todo o lixo que podia, um orgulho imenso invadiu meu corpo.  Quando olhei pra Lucia e vi ela segurando todos nossos casacos também nos ajudando, fiquei feliz com este souvenir que trouxemos de Paris, a civilidade.

Por um bom tempo, nós 3 nos revezamos, a chuva apertou e saímos. Nous sommes tous Charlie. No entanto, não basta ser Charlie, tem que ajudar a recomeçar. Fizemos isso e seguimos nosso caminho, felizes, os três juntos, com a alma mais leve.

As bottes jaunes estavam juntas indo mais a frente guiando meus passos, e eu tranquilo por v§e-las assim. Nous sommes tous Charlie, antes, porém, nós somos uma família, que se ama, briga, ora também não entende as piadas e muitas vezes se perde, mas, como disse o próprio Charlie na capa de 14 janeiro de 2015 que rapidamente se esgotou, tout est pardonné. E nós sempre perdoamos.

 

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>> A primeira parte das colunas especiais de Paris: AQUI
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