Tosco Pai em Paris: viajo de galochas



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As malas, que sempre causam rusgas, desta vez não causaram. Afinal, estávamos indo para Paris, a cidade do amor – e amor foi o que sentimos quando lemos no cartão de embarque o nome da Cidade Luz. No aeroporto, o despachar das malas foi sublime. Olhamos para elas, em câmera lenta, e apenas pensamos: sigam, não olhem para trás, a gente se vê em Paris! O frio na barriga existe, afinal, somos estrangeiros, chegar ao velho mundo nunca é fácil, as regras são diferentes.

No avião, eu fico pensando sobre a travessia do oceano, volto no tempo e penso nas aulas de história, penso em Colombo. Alice não se importa com nada. Ela quer ver desenhos, quer saber porque ainda não estamos voando. Eu penso na imigração. Será que vão olhar para o meu nariz e pensar que, sim, tenho cara de um típico francês, mesmo sendo brasileiro, um misto de sírio-libanês com italiano?

O avião decola. Assisto Malévola. O avião aterrissa, vejo Paris.

A cidade é linda! Olho para minha mulher e a percebo ainda mais bonita. O que é o amor? E por que Paris se apropriou tão bem dele? Incrível como olho para minha mulher e minha filha mais apaixonado, perdidamente apaixonado, inebriado de amor, mas também perdido por não conhecer nada daquele país, por estar em um aeroporto gigante e por saber muito pouco daquele idioma.

Passamos as esteiras, procuramos nossas bagagens cheias de cachaças e pimentas do mercado público de Pinheiros, algumas memórias e alguns livros.

Avistamos a imigração.

Fico alerta. Prefiro não chamar de medo, chamo de alerta. E se eles não forem com a minha cara? Afinal, minha monocelha define minha etnia, estou barbeado, porém, a cara de árabe é evidente. Tenho um nariz que me denuncia. Lucia, por sua vez, é tão branquinha, sempre achei ela tão francesa, seu cabelo fininho e encaracolado, traços bem delicados.

A imigração está agora bem na nossa frente. Não vamos escapar.

Bonjour! Ça va?

A pergunta parte do chão. Os homens da imigração olham para baixo para poder responder.

– Bonjour, ça va bien! Vous parlez français?
– Oui.
– Ce que tu fais ici, en France?
– Oui?

Agora ela não sabe mais responder, porém, já havia amaciado os corações da imigração. Outra pergunta, essa já com resposta embutida.

– Vacance?
– Oui.

Desta vez quem responde é a mãe. Mas o oficial volta a falar com Alice.

– Qui vous a appris à parler français?

Ela olha pra mãe procurando ajuda. Começamos a explicar em inglês, porém, eu falo um belle-sœur, que encaixa com o my sister de Lúcia.

O oficial elogia o francês da pequena, não o nosso. Falamos mais um pouco, eu brinco que só a trouxemos porque ela fala por nós. Ele concorda e então ouço um sinfônico “blam, blam, blam”. São as três carimbadas em três passaportes e um simpático bonne journée.

Agora faltam as malas, as cinco malas. Já estamos na França e já dá para sentir o cheiro da história. Paris está na minha cabeça desde a sexta série, na primeira vez que ouvi falar sobre a Revolução Francesa. Eu queria ver depois do aeroporto, eu queria ver a torre, caminhar pelo bairro, ouvir as pessoas.

Ainda estamos no terminal dois, exaustos e sem internet. Alice entediada, parece estar num mau humor. Na nossa chegada, ela percebeu que sua luva estava rasgada, entristeceu, desabou. Claro que era cansaço, mas ela preferia culpar o furo da luva.

Conseguimos contato, Lucia fala com Simone, que, além de um lar para dois meses, nos manda um táxi. Ele demora, nos olhamos preocupados, é tudo ansiedade, vontade de ver quem é essa Paris que tanto amam. Chega o carro. Tão logo começa a andar, Alice dorme. Enquanto ela dorme, descansamos sem tirar os olhos da Cidade Luz. São quase dez da manhã, não há sol, porém, ela é linda, fria e nublada.

A gente ri. Se olha e ri. Olha pela janela e ri novamente. Meu corpo só quer dizer obrigado para essa menina que inventa, que em um belo dia, quando tu chega em casa, simplesmente te olha e diz: nós vamos para Paris.

O táxi chega na Rue de Crimée, nossa viagem foi silenciosa, eu e Alice até tentamos conversar com o taxista arábe, que preferiu o silêncio do que gastar o inglês com amenidades. Alice acorda.

– Aqui já é Paris?
– É amor, é Paris.

Olho e vejo pela primeira vez o parque Buttes-Chaumont. Ele fica em frente ao nosso lar e 33 dias após a nossa chegada iria ganhar as manchetes dos jornais por ter sido frequentado pelos terroristas que atacaram o Charlie Hebdo. Mas isso é história para depois.

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Dezembro é agora, estamos no dia 4, não sei quanto tempo não via Simone ao vivo, nos víamos apenas via ecrãs. Simone tem um sorriso lindo, grande e muito verdadeiro. O sorriso de Simone é aberto, assim como sua casa e, sim, a casa de Simone sorri. Já era assim em São Paulo, e continua assim em Paris. Nos três lares de Simone que visitei sempre encontrei alegria no cômodos, na cozinha. As casas de Simone são abertas como seu sorriso.

Inversamente proporcional ao sorriso de Simone são os elevadores de Paris. Nesse dia achei que tinha entrado no menor elevador do mundo, mas esse recorde ainda seria quebrado pela cidade.

Algumas viagens depois adentramos à porta do cinqème a gauche. Ele sorri para mim, vejo a luz imensa que entra por duas janelas e delas enxergo o parque. Piso num chão de madeira que faz um barulho bom, tudo cheira tão bem. Ça c’est Paris!

Na área de serviço, um homem arruma o gás que aquece a água para o banho. Não penso em banho, estou em Paris. Não penso em água, acabei de sair de São Paulo. Só penso na rua, na verdade, só quero um pão.

Simone sai para sua aula. Alice conversa com o trabalhador francês. Pergunto o nome dele, mas como não consigo compreender, acabo esquecendo e sigo chamando-o de monsieur. Alice impressiona pela facilidade em entender.

– Vacance?
– Oui.

A palavra surge pela segunda vez no dia e agora ela já consegue responder com confiança.

De casacos, tentamos falar com o monsieur em inglês, mas não obtemos sucesso. Em francês ele não teve êxito conosco. Intercalamos um português que também não pareceu evoluir. Usamos google tradutor e chegamos a um entendimento. Nós sairíamos e ele só precisaria bater a porta quando terminasse o serviço.

Na minha cabeça eu me pergunto: será que devemos esperar ele terminar antes de sair? Essa desconfiança made in brazil não iria mudar assim tão cedo. Saímos. Quando em Roma, faça como os romanos. Quando em Paris, faça como os parisienses. O frio abraça. A felicidade esquenta.

Subimos a Crimée, encontramos a estação Botaris. Será por ela que vamos percorrer a cidade. Caminhamos mais um pouco, passamos por um portão, deveríamos ter seguido reto, mas a arquitetura e as ruas pequeninas nos puxaram para a direita. Encontramos um mercado e fizemos nossas primeiras compras para o jantar. Essa seria nossa rotina: passeios de dia, mercado de noite e muito a la table com os amigos.

No primeiro dia, a rua errada, ou melhor, a rua que não procurávamos. Ao longo da viagem, Laumiere, Place de Fetes, Jaurès e Botzaris seriam nossas estações.

Sempre com um mercado por perto para comprarmos algo para comer em casa. O dinheiro some rápido das nossas contas logo nos primeiros dias, isso porque precisávamos nos equipar. Compramos o cartão NaviGo. Paris era nossa, por ônibus, trem, metrô e calçadas.

– NaviGo, NaviGo! – canto como a Elsa.
– Pai, para com isso.
– Para com isso por quê?
– Você tá rindo de mim! Você tá me imitando!
– Não cara, eu tô fazendo uma paródia da música da Elsa.
– Ela não canta assim, nem eu.
– Sim, sou eu que canto assim.

Essa discussão durou quase os dois meses da viagem. Foi difícil explicar o conceito de paródia.

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Nosso primeiro grande passeio foi ao balé. Na Bastille, fomos ver O Quebra-Nozes. Tudo lindo e perfeito. Nosso plano era que cada um visse um ato, visto que Alice, curiosa que é, não pararia de falar um minuto. Eram muitas perguntas que sempre recebiam um “shhh”. Mas não conseguimos trocar a guarda. Lucia ficou o tempo todo com Alice, e eu de galochas na ópera olhava encantado os passos desenhados para música de Tchaikovsky.

No último ato, vi uma mãe brigando com a filha, uma visão estranha. Olhei para Lucia e Alice. Fiquei um pouco culpado por não ter conseguido ajudar a minha mulher, não ter dividido Alice com ela nos atos, porém, voltei minha atenção para o palco. Depois fui encontrá-las no lugar combinado.

– Desculpa gatinha.
– Que foi?
– Ué, tu não viu o último ato?
– Vi, sim.
– Mas não vi tu voltar, só vi tu sair com ela, vi vocês conversando depois saindo.
– Não. Ela não parou de falar, fiquei bem incomodada, mas depois deu certo.
– Nossa, era nítido para mim que vocês duas estavam falando e depois saindo.
– Acho que tu viu só meu pensamento. Hahahahahahaha.

Fomos para casa. Cheios de amor e com os olhos felizes e os ouvidos massageados. Uma bela noite que terminou num fast-food antes dos lençóis.

Os dias seguintes viriam com novas alegrias e até algumas tristezas e frustrações, mas viajar é isso, brigamos, mas sabemos que curtir vale bem mais a pena, somos uma família que se ama muito, e essa é a terra do amor. Já tínhamos transporte, agora faltava um lar, claro, tínhamos uma casa linda, onde a gente dormia, cozinhava, tomava os melhores cafés da manhã, tinha dança, tinha cantoria, só tinha alegrias, mas nossos anfitriões também precisavam de um pequeno descanso da gente. Lucia então encontrou nosso lar: La Cité des Sciences & de L’industrie. Moramos lá, até visitamos um submarino, num pequeno momento torci a cara, Lucia comentou quantos euros custariam esse investimento, 84 por um passe para a família.

– Oitenta e quatro por pessoa?
– Não amor, pelo ano, para a família, pra gente poder vir aqui quantas vezes quiser.
– Vale mesmo?
– Cara, um dia aqui pra nós três dá uns 20 euros, um dia, oitenta por um ano…
– Mas vamos ficar só dois meses…
– Mesmo assim, vale muito a pena. Tem planetário, exposições… A gente pode morar aqui dentro.

E foi assim que arrumamos mais um lar. Quando o tempo estava feio, fechado ou acordávamos tarde, era lá que nos abrigávamos. E não era só um teto sobre nossas cabeças, era um lugar cheio de conhecimento e alimento para nossas cacholas. Quando a coisa ficou feia por lá, depois daquele 7 de janeiro, foi lá que buscamos abrigo. Foi lá que esquecemos um pouco do terror e voltávamos caminhando para casa, refletindo sobre o terror, o amor e o saber brincar.

Tive medo, mas na terra onde não se começa nada sem um bonjour, esperamos pelo novo dia, sabendo que ele seria melhor, porque aprendemos diariamente que o amor é sempre mais forte. E nós, que tanto queríamos encontrar a história pelas ruas de Paris, passamos a ser um pouco parte dela também.

A história continua…

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