Tosco Pai em Paris: epopeia dos museus



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Alice está impossível, museus a cansam e não é de hoje, é desde o dia em que pisou em Paris. Não aguenta os quadros nada interativos que as pessoas, seus pais, só olham e pronto. Galerias e galerias de quadros e mais nada pra fazer.

Foi assim no Carvavalé, Hotel de Ville, Cinemateca de Paris… Ela se entediava com todas as pinturas, maquetes, câmeras antigas, evolução da fotografia e do cinema.

– Tu viu, aqui, olha só, um desenho animado… Um dos primeiros.
– Eles não se mexem muito.

Durava pouco o interesse.
As fotos de Cartier Bresson não a emocionavam
Fazíamos a chantagem emocional.

– Cara, a gente vai em vários lugares que tu gosta e tu não pode aproveitar esse passeio que o pai e a mãe querem fazer?
– É que museu é muito chato…

Essa informação é ruim, precisamos melhorar isso na cabeça dela. Ela gostou do Centre Georges Pompidou porque Jorge também é um colega que ela gosta muito. Divertiu-se no Muséum National d’Histoire Naturelle porque sua pesquisa na escola foi sobre o corpo humano e os ossos. Mas a que amou, brincou e se divertiu muito foi a exposição Capitaine Futur et le Voyage Extraordinaire. Bem interativa, fez música, andou num balanço que viajava pelas estrelas, brincou com a areia de um planeta diferente e dançou, pulou, correu e depois deitou num território onde quem fazia os terremotos era ela.

Nos outros museus usamos sempre a mostra do Capitão Futuro na Gaîté Lyrique como argumento de que nem todo museu era chato. Porém, o frustrante Louvre não colaborou muito com a nossa campanha. Nada contra o museu, afinal, ele é lindo, só que é imenso, muita informação. Pagar sabendo que tu não vai conseguir ver tudo é o que frustra, desanima a todos. Adultos e crianças.

– Gatinho, já tá de mau-humor?
– Hã? Não, não mesmo, só estou cansado, bem cansado… Não aguento mais história antiga, já vi tanta múmia, estátuas, ruínas… Preciso de um quadro. Tinta…

Começamos o Louvre pela história antiga, achamos que ia fascinar Alice. Fascinou, só no início, depois tudo era terrível pra ela. Aliás, começou o dia no cemitério Pére Lachaise, pois seu pai queria ver o túmulo de Jim Morrison.

– Quem é ele pai?
– Jim Morrison, vocalista de uma banda que o pai gosta, os Doors…
– Ele tá ali dentro?
– Dizem que sim…
– Pai, cê viu que o nome dele tem “morri”? E também tem som… A gente pode entrar ali?
– Na tumba? Espero que não.

Então vem a decepção da menina.

– Ah… Eu achei que a gente podia entrar ali…

Antes de entrarmos no cemitério eu e Lucia tivemos uma pequena briguinha… O motivo? Minha falta de orientação.

– Cara, esse é o único passeio que tu disse que queria fazer e nem sabe como chegar… E nem sabe onde estão a Katiane e o Moika e nem onde está a tumba…

Clima tenso, pesado, cinza e eu perdido. Terminamos o dia no Louvre vendo o Renascimento, praticamente correndo e arrastando a menina pelos corredores de Rafael, Donatello, Michelangelo e Leonardo, todas as tartarugas ninjas…

Museu D’orsay, estamos mais preparados, levamos brinquedos e ela brinca nas cadeiras onde velhos descansam e crianças são abandonadas dormindo , isso ocorreu no Louvre e tivemos essa vontade, porém, não tivemos a coragem. No D’orsay, Lucia fez.  Pediu para ela não sair dali, a gente dividia a guria nos museus para cada um poder olhar um pouco melhor e mais concentrado. Ela quase se perdeu…

– Eu não disse pra não sair dali…
– Eu achei que ia fechar e eu ia ficar presa aqui dentro…

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Novidade, mais um passeio, outro museu, tudo parece o mesmo, esse tem materias, chama-se Art et Metiers, a estação de metrô é a preferida dela, mas era só isso, não queria ficar olhando instrumentos que não dizem nada para quem ainda não estudou história. Seu negócio é o presente, não importa o quanto o pai explique e a mãe queira manter o interesse, criança é criança e ponto. Tudo que está em exposição claro que teria muito mais utilidades em suas mãos.

– Por que eu tenho que só olhar para uma luneta, telescópio se eu não posso olhar nela. Ver as estrelas? Precisa mesmo ficar atrás desse cubo de vidro?
– Alice não toca!! Ne pas toucher!

Todo museu tem isso, o pouco de francês que o pai fala se resume a ne pas toucher, tem também o ne pas marcher… Tudo tem ne pas… Sou implacável no ne pas.

O lugar é muito interessante, mas ela não se interessa por nada ali de dentro. Na verdade, gosta dos tablets que explicam sobre o que está a mostra, senta num lugar ou noutro enquanto os pais avançam, brinca com as informações da exposição, para ela são pergaminhos que escondem poções mágicas. Tenho um olho na exposição, outro nela.

– Alice! Ne pas toucher!
Oui, bien sur papa!

Entediada que só ela.

Eu e a mãe revezamos ela de sala em sala, aprendemos isso nos outros museus. Passa por um e pelo outro sem nenhuma motivação. Corre, grita e outros momentos senta, começa outra vez a mexer num iPad.

– Alice, vem ver como eram os computadores. Tu acredita que isso era um computador?
– Acredito.

Nenhuma vontade, seu olhar vem debaixo e é do tipo: “Tu me chamou pra isso?”

Inúmeras foram as tentativas. Olha, Alice, esse é o laboratório do Lavoisier.

– É?
– É.
– Humm. Ele é um cientista?
– É. Olha que legal, um laboratório de verdade.
– Dá pra tocar?
Ne pas toucher
– Ah…

Outra ala, outro grande cientista, estudioso, máquinas incríveis. Ela só quer correr, descobrir algo legal.

– Olha, Alice, um robô!

Pula, agita, não para. Je suis impaciente, a mãe também. Os seguranças do museu já nos olham diferente, os piores olhares são dirigidos para Alice, aqui é assim. A bronca não é para o pai, afinal, eles parecem estar se comportando, a dívida é cobrada direto com a criança. Criança francesa não faz manha e aprende cedo que o papo é reto e que os problemas que são seus não são de mais ninguém. Não são dos teus pais.

Nesse dia especial do museu não pagamos nossa entrada. Das 18 às 21, entrada franca, visite, conheça nossa história, fique à vontade. Esse dia especial tem a rebeldia inocente de uma menina de cinco anos que não queria estar ali. Já estava cansada, andamos muito nesse dia.

Esse dia é especial porque tia Cris chegaria com as primas e o tio Ronald, a mãe vê uma possibilidade de conseguir ver a exposição não tão fragmentada como as outras e sem ser perturbada pelo olho no peixe o outro na Alice… Escreve para a irmã, que informa estar poucos metros dali, num restaurante com uma estrela e um toldo vermelho. Lucia bufa como uma francesa.

Ce ne pas possible! Por que ela não substitui a estrela vermelha e o toldo vermelho por uma rua e um número?

Percebe que a desorientação não é só uma qualidade do seu marido. Ela já tem um mapa no seu aparelho e as coordenadas que faltavam.

– Gatinho, vem aqui…
– Hã?
– Tu teria capacidade de deixar a Alice com Cris num restaurante perto daqui?

Como pode ser assim tão persuasiva? De qualquer forma que ela fizesse a pergunta eu poderia escapar. Mas o “tu teria capacidade” mexe com a minha capacidade, com minha perspicácia, é um teste direto de sobrevivência. Tem algo de estranho nesse “teria capacidade”, tipo, “se um dia eu não estiver mais por aqui tu conseguiria levar tua filha para algum lugar utilizando um mapa?”.

A resposta é, claramente, sim, tenho capacidade.

– Capacidade? Acho que tenho, não sei se habilidades com mapas.

Nunca tive habilidade com eles, sempre vi nisso uma zona de conforto do tem quem faça, não vou fazer. Pois é, e se um dia Lucia não puder? Essa exposição é a cara dela, não posso deixá-la perder algumas horas entregando a filha para irmã, ela merece estar aqui muito mais do que eu.

– Tá. Tô indo. Vamos, Alice…
– Ué? A gente já vai pra casa? E a mamãe?
– Não, eu vou te deixar com a tia Cris.
– É porque eu tô incomodando né?
– Não. É porque tu não tá gostando do museu, não é mesmo?
– É…
– Tu não prefere encontrar tua tia, tio e primas?
– Prefiro…
– Vamos?
– E a mamãe?
– Ela fica aqui, tu fica lá, depois eu volto pra cá e encontramos todo mundo.

Saímos do museu, conversei com todos seguranças. Dei um já volto pra todos. Vejo a rua, consulto o city-maper já configurado pela mulher GPS… Caminho olhando o celular, acompanho a setinha do aplicativo que ora diz que estou certo e, na maioria, afirma que estou errado. Dou a volta no quarteirão, reencontro a entrada do museu, recomeço o jogo.

– Pai, por que em toda esquina você para e fica dando voltinhas?
– Porque tem um mapa no celular do pai… Daí eu fico vendo onde tá a seta.
– Pai, você é um pouco meio perdido…
– É. Um pouco.
– A mamãe não é… Porque ela não trouxe.
– Ah, porque a mamãe perguntou se o pai tem capacidade… E ela merece ver a exposição, ela sempre nos trás, o pai tem aprender também.
– O que é capacidade…
– Algo que o pai não tem, eu acho…
– Quê?
– Nada, deixa o pai concentrar…
– A gente tá perdido?
– Não…
– Eu tô com medo…
– Eu também, mas não fica que eu também fico, Se tu ficar tranquila eu fico tranquilo.

Nenhuma mentira, estava com medo, sim, e nem sei o porquê. Estava em ruas diferentes, mas Paris não é São Paulo, porém não era a segurança que me afetava, era o desafio da capacidade, e eu ainda queria voltar pro museu e precisava entregar a menina sã e salva para tia.

– Pai, eu tô cansada!
– Eu também, filha…
– Você deixaria eu andar na sua cacunda?
– Bah, Alice, ce ne pas possible!
– Pai…?
– Tá, vem cá, eu te dou um colo.

Andamos algum tempo, o que eu fazia a seta fazia diferente, eu para um lado ela pra outro, agora eu faço malabarismo com celular e uma criança, um em cada mão.

– Consegue andar um pouco agora?
– Consigo.

Anda e me ajuda, saio de uma rua escura e vejo uma rua movimentada, frutas, queijos, cigarros e pessoas. Vejo um toldo vermelho. Vejo inúmeros toldos vermelhos, procuro pelo estabelecimento, procuro cabeças loiras, oitenta por cento das que vejo são loiras. Olho mais um pouco, a estrela vermelha, focalizo, vejo Cristiane, que me vê. Faço Alice entrar sozinha no bar.

– Cê já vai? Não vai comigo? Vai me abandonar?
– Cara, tô aqui. Como tu é dramática. Vai ali fazer uma surpresa pra galera. Dar um susto neles…
– Tá, mas me espera aqui fora.
– Vou ficar te olhando.

Ela entra, desconfiada, olha pra trás, vira pra um lado, parece desorientada como o pai, olha para o outro lado, localiza a turma, ufa, puxou a mãe graças à “Santa da Boa Genética”.

– Buuuuuuh!

Dá seu susto. Recebe sorrisos e já está adaptada. Entro, beijo a turma e prometo voltar. Nossa, como foi difícil. Não quero fazer o caminho contrário, com ela não me perdi, porém, sozinho não terei a mesma chance. Cristiane é “habituê”, me indicou onde teria um metrô próximo, disse que entendi, já saí dali perdido novamente, mas não farei o caminho contrário, nem sei por onde andei direito, não olhei para paisagem, olhei só pro aplicativo e para os olhos assustados da criança que refletiam o temor dos meus. Atravesso a rua, vejo o metrô, enrolo um cigarro. Tem gente que tem medo de fantasmas, assalto, raios, relâmpagos eu tenho esses medos, e também de mapas. Acendo o cigarro, ligo o celular. Um caminho de sete minutos é a rota que traça o aplicativo, uma linha reta, acalme-se Ricardo. Fumo, sigo em linha reta, desisto do metrô, observo a paisagem, é tudo tão lindo. Paris é tão charmosa quando andamos sozinhos. Olho pro celular, ele morreu, justamente no ponto da reta onde eu teria uma pequena curva. Paro uma pessoa na rua, que desconfia.

Pardon, je ne parle pas français… je cherche pour arts e métiers…
– Metro?
Musée
Oui, se la mesme chose. Droit, droit e gauche.
Merci!
Me vous amprix

Faço o que ela mandou, droit, droit, gauche. De novo. Onde estou? Não reconheço, contornei a igreja quando fui, a moça fez eu contornar na volta, mas e agora? Passa um moço. Vou pedir informação, ele se esquiva. Insisto.

Je cherche pour musée Arts e Métiers…Vous parlez anglais?
–  This one?

Fala apontando com um sorriso francês debochado.

Merci, merci, merci!

Entro, revejo meus amigos seguranças, apenas um deles trocou de turno, é o que me pede o ingresso. Não acho Lucia. Ligo pra ela e nos encontramos depois de algum tempinho tentando desvendar o lugar onde cada um está. Nos encontramos. De mãos dadas, passeamos, fazemos fotos, estamos sozinhos, contemplamos juntos tudo que vemos, e em silêncio. Nossa Alice é, sim, um amor de menina, estamos, sim, fazendo nosso melhor, mas como é bom estar sozinho com a mãe da Alice. Alice é uma pessoa já, de cinco anos, com suas próprias vontades e muito personalidade, ainda bem.

Na parte debaixo da exposição voltamos a lembrar dela depois, claro, de aproveitarmos um pouco do silêncio dentro de nossas cabeças e ver a exposição tranquilos. Lembramos dela quando vimos maquetes de trens, aviões, o Clément Ader’s Avion III no teto, em cima da gente, os meios de transporte que ela tanto gosta. Faço selfie com as bicicletas, algo que lembro da gente.

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Saímos, acendo um cigarro, Lucia não me acompanha nesse, em respeito à irmã e sobrinhas. Eu fumo e penso, Quintana já disse isso…

“Desconfia dos que não fumam:
esses não têm vida interior, não tem sentimentos.
O cigarro é uma maneira sutil e disfarçada de suspirar”

Suspiro: que filha maravilhosa que tenho. Divido com a mãe, concordamos, estamos fazendo muito bem, nosso caminho é certo, e esse é sem mapa.

Quando chegamos no bar da estrela vermelha, encontro uma criança diferente da que saiu comigo do museu. Está feliz, alegre, encontrou sua familia e está fazendo o que quer e não acompanhando seus pais no que eles querem que ela goste.

E eles estão felizes e riem de mão dadas.

Alice, minha filha, pequena pessoa já cheia de vontades, poucas horas sem ti são legais, às vezes a gente quer é ficar sozinho mesmo ou em outra companhia… Lembra?

– Pai fecha a porta, quero ficar sozinha…

Tu é o melhor caminho que percorro nessa vida, é difícil, com os altos e baixos, como são os bons passeios. E por falar em bom passeio, não importa se em Paris, perdido em qualquer rua com a cabeça na lua, a saudade que me dá de ti me faz te achar sem mapa nenhum.


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