Tosco Pai: Parto ao contrário



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A gente foi pra Europa pra fazer a menina. Em 2008 eu voltei a fumar e, no velho continente, o cigarro combina tão bem. Fumar faz mal, sim, mas tudo nessa vida faz mal, umas coisas mais que outras, mas a gente não tá livre de nada.

Ano passado a gente foi para Paris. Fazia seis anos que eu havia parado com o vício, sempre gostei, parei num 27 de novembro de 2008, aniversário do meu pai, decidi dar esse presente pra ele e pra mim também. No dia 09 de dezembro desse mesmo ano, um dia depois do aniversário da minha sogra, Lucia mudou minha vida com um “estou grávida”.

Assim foi fácil evitar o cigarro.

Nessa nova travessia do Atlântico, esperava por isso, alguma coisa iria mudar. Lucia voltou a fumar, eu também. Não esperava uma nova gravidez, mas uma mudança drástica envolvendo essa nova ida ao velho mundo.

Nada parecia diferente, e a gente estava tomando os devidos cuidados para não sermos surpreendidos por uma nova gravidez. No dia 09 de julho desse 2015 fumei meus últimos cigarros. Enjoei, tive naúseas, vomitei, então, no dia 10 de julho, parei de novo.

No dia 10 de agosto estava leve e tranquilo por ter parado com o vício já há 30 dias. As corridas, as pedaladas e os tachos de geleia foram ocupando minha cabeça, claro que o café e a cerveja por vezes queriam me convencer a tirar o isqueiro do quinto bolso, mas resisti, resisti a todas tentações da nicotina e alcatrão.

O dia é 20 de agosto e a gente ri na cozinha, fala qualquer coisa e não segura a risada, tudo é motivo, tudo é alegria.

A hora vira, o humor vai virar também.

Um dia nublado anuncia o 21 de agosto, mês do desgosto, até o momento não falei, mas Lucia sente um carocinho no peito e eu, há tempos, sinto um nó na garganta, mas optei não sofrer por antecipação. Melhor esperar o diagnóstico.

O resultado de todos os exames feitos em agosto é o que não queriámos. Lucia tem câncer no seio.

Ora essa, universo, por que eu? E por que de novo?

Lucia parece encarar melhor que eu, que já tenho desfeito o nó da garganta, agora tenho um acidente geográfico nos olhos, a água é abundante, verte. Lucia conta para médica, fala da minha perda aos 12 anos, eu só penso em Alice.

Quando fomos para a maternidade, não tinhámos plano de saúde conjunto, nem pensávamos em ser uma família, estávamos brincando de casinha. O primeiro hospital que visitamos, que era o que plano de Lucia cobria, não nos sorriu, não nos sentimos em casa, afinal, a ideia inicial era que o parto fosse em casa. Então a obstetra sugeriu um outro, porém seria tudo particular.

Respirei fundo tirei o cartão de crédito do bolso e digitei minha senha cantando Tim Maia: “Quando a gente ama, não pensa em dinheiro, só se quer amar, se quer amar, se quer amar”.

De frente para mastologista e para os números escritos no papel e descritos respectivos valores e especialistas, a canção volta a minha cabeça. Penso no que tenho e no que posso me desfazer. Transformar tudo em dinheiro. Tudo o que não é muito.

Vejo pela primeira vez o tempo parado. Tudo passa devagar e, agora, durante um mês, até nos decidirmos, ele andará lento, os ponteiros vão se arrastar.

A gente visita um outro médico, ele é seco, ele não chora com a gente, ele não pega na minha mão e diz: “Sim, você está atravessando uma mesma ponte, mas as águas são outras”. Não, ele não se importa comigo, apenas com a sua paciente. Paciência, mas aprenda, a vida agora que importa é a dela.

Agora que temos um plano de família pensamos em seguir o plano. Muitas opiniões vieram, inclusive da família, algumas erradas, algumas que até me deixaram culpado, porém, ninguém sabe o que está dentro da cabeça e do coração do outro. Apenas achamos que sabemos mais, e isso é natural, é instintivo. O ser humano gosta de opinar, mesmo não precisando.

No dia 21 de agosto eu ia almoçar na casa de um amigo, mas não conseguia, o corte na cebola foi o suficiente para as lágrimas descerem novamente, ininterruptas. Precisei correr até ela, deixei Alice almoçando sozinha, pedi ao amigo que a deixasse na escola.

Abracei ela quando cheguei em casa, fiz um almoço simples, quebrava ovos e chorava, olhava para as gavetas, via os potes que ela comprou e pensava, “eu não sei comprar potes”

Lucia encheu a casa de amigos nesse dia, um jantar, piadas, quando ela tropeçou uma amiga disse:

“Descobre um câncer pra morrer de tombo”

Entre um choro e outro, a risada.

A mesma amiga olha pra mim e diz:

“Tá vendo aquele carro ali embaixo? É meu, mas eu vendo pra vocês e não quero nada, só vocês”

Eu tenho vários acordos com o Universo, um deles foi depois do primeiro beijo que dei em Lucia: “Se ela estiver no ônibus fico com ela pra sempre”. Não se sabe o tamanho do para sempre, mas a gente sempre foca no eterno enquanto dure. E vai durar e muito.

Outra conversa que tive com o Universo eu disse:

“Saio de São Paulo se aos 35 anos eu não estiver rico”. Tenho 36, estou em São Paulo. De dinheiro claro que não estou rico, mas a minha riqueza está em sorriso e carinho, e isso o banco nem consegue guardar.

Agora já estamos em setembro, os dias passaram devagar até decidirmos a melhor estratégia. Escolhemos o hospital, agora temos um plano familiar e em pleno outubro rosa a primeira quimioterapia.

Eu, que chorei muito de medo, de tristeza, hoje choro de alegria, de emoção, pela riqueza mencionada acima, me apeguei em mantras novos, ditos por amigos queridos.

“Agora poderás fazer o que não tinha idade pra fazer na época.”
“A tua história não será a da tua filha.”
“Fica calmo, não briga por bobagem.”

Esse último é o mais difícil. Claro que a gente briga, e claro que é por bobagens, é inevitável. No entanto, nessa fase temos que evitar até o inevitável.

Demorei pra entender, compreender meus nervos a flor da pele, minha bipolaridade. Minha impacência.

Caminhando por Santa Maria sozinho, descendo da casa da minha sogra para a casa do meu pai, pensei no termo que eu estava usando, “parto ao contrário”, e das pessoas não entenderem muito essa piada, ou analogia estranha. Os cuidados são praticamente os mesmos que tivemos quando Alice nasceu. Uma esponja especial, lavar bem os alimentos, não consumir alimentos congelados por muito tempo, mãos sempre limpas, ficar alerta aos espirros e tosses.

Eu sabia que algo que ia mexer muito com a minha vida, tudo estava se repetindo: a viagem à Europa, os cigarros… Sentia que algo ia acontecer enquanto atravessávamos o Atlântico, agora sendo um trio. Alice já tinha deixado o ventre da mãe e ocupava a poltrona da janela, aquela que a gente revesava para ver a paisagem quando éramos só dois.

No dia 21 de agosto eu descobri minha gravidez. E não será um parto ao contrário, será um parto normal que trará a vida uma mulher de 35 anos. Já escolhi o nome: Lucia, o mesmo nome da mãe de Alice.

 

Nota da Redação 

Lucia, Tosco Pai e a Alice têm oito meses intensos pela frente: esse é o tempo do tratamento até a mastectomia, procedimento inevitável no caso da Lu. Nesse período, o ritmo de trabalho vai ter que ser reduzido em alguns momentos, por isso a família deve precisar de ajuda para gastos. A maior parte dos procedimentos é coberta pelo plano, mas (quem tem casos de câncer na família, sabe) há muitos extras. Para colaborar, os amigos do trio criaram um site de contribuições. Caso possa colaborar também, clique aqui e saiba como. E fique à vontade para divulgar a página www.lumefa.com! Toda ajuda é necessária neste momento! 


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