Tosco Pai:: doces lembranças de Páscoa



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Páscoa.
Sempre preferi ela do que o Natal.
Os filmes na sessão da tarde eram mais legais. Tinham mais sangue!
Não era um feriado em época de férias. Era um feriado mesmo, no meio do ano letivo. E esse feriado sempre me trouxe algumas surpresas.

Minha mãe sabia como ninguém preparar uma boa páscoa para os filhos. As meninas já eram maiores, mas ainda assim se divertiam bastante. Ela escondia, fazia uma bela seleção na cesta; claro que sempre tinha alguns bombons com frutas, mas esses voltavam direto pra ela.

Ser mãe é padecer no paraíso e comer chocolates com frutas cristalizadas.

Veio dela esse ritual de esconder a cesta de chocolates. A páscoa é a data que eu me lembro muito dela. Pela dedicação, pela alegria que ela tinha ao preparar tudo. E também porque na páscoa sempre se falou de morte, depois em ressurreição – esta era a palavra cujo significado  não demorei saber  - porém, até hoje não sei escrevê-la direito, era a vilã nos ditados, tinha medo quando a professora perguntava, sempre acabava com a minha nota 10.

Quando ela morreu, queria que ela ressuscitasse, não seria páscoa sem a sua presença.
Mas esses privilégios só quem tem mesmo é o filho de Deus. Não o quarto filho de um bancário com uma professora.

Mas meu pai se virou muito bem, a páscoa com ele não ficou nada vazia. Diferente apenas, mas uma coisa se mantinha além de todo o amor:  o arroz com bacalhau e o peixe assado no forno. A sexta-feira santa era o dia que a cozinha era toda do meu pai. E domingo, além dos chocolates tinha também o seu delicioso churrasco.

Bom, eu cresci, mas ainda ganhávamos chocolates. Era uma maneira de lembrarmos dela.

Porém, teve uma páscoa em que ganhei chutes e ponta-pés, quando defendi um amigo que, covardemente, apanhava de uns cinco caras; eu apenas tirei ele da briga e apanhei por ele. No dia em que fiz meu primeiro trabalho fotográfico, e recebi por isso, fomos comemorar numa boate; apanhei por ele, eu que nem queria brigar, que fui chamado de covarde pelos meus amigos.
Acho que essa foi a minha atitude mais cristã até hoje. Ofereci as duas faces, os dois olhos, o nariz, as costelas… E por algum motivo o marginalzinho que me batia com uma mão e segurava uma garrafa com a outra, desistiu de usá-la em minha cabeça. Talvez por ser feriado de páscoa e eu estar barbudo parecendo Jesus.

No outro ano, senti medo da Páscoa… Fiquei pensando no passado. Porém, num dia 23 de março, dei um beijo numa garota que eu olhava sempre na faculdade, dava pequenas suspiradas, olhava seu jeito de caminhar, vestir e ficava bobo, todas as poucas vezes que ela falava comigo.

Depois desse beijo, demorei um mês para subir na casa dela. Tinha medo, não queria apurar as coisas, não era hora nem momento de assumir um namoro.

No sábado de Aleluia fui até sua casa…
Dessa vez eu subi. Só estava ela e a irmã.
Dei pra ela alguns chocolates que comprei, ela ficou surpresa, não imaginava, embora também tivesse comprado pra mim.

Acordei em sua casa, no domingo de páscoa…

– Bom, tenho que ir…
– Já? Fica um pouco mais…
– Tenho almoço em casa, minha irmã que mora em Porto Alegre tá aí…
– Ah, legal…
– E tu, o que tu vais fazer?
– Vou comer um sanduíche de páscoa.

Claro que ela falou isso com uma voz tristinha e desanimada, só pra eu assumir esse namoro que eu não achava que fosse a hora, só pra eu convidá-la…

E assim foi…

– Quer almoçar na minha casa?
– Tudo bem?
– Tudo…

O peixe mordeu a isca, claro.

Depois dessa páscoa, tivemos muitas outras.

Porém nessa ela viajou, e ficamos eu e Alice. Sozinhos.

Quarta feira, ela entrou num ônibus e encarou 24 horas em direção ao Sul, para a cidade de Cachoeira do Sul, uma grande reunião de família a esperava.

Busquei Alice um pouco mais cedo na escola para se despedir da mãe…

– Ei, pai, porque você me buscou ainda com o sol alto…
– Porque a mãe vai viajar… Pra dar tchau pra ela, falar boa viagem…
– Mas eu não gosto que minha mãe viaje sem mim…
– Desta vez ela vai sem o pai também…
– Mas ela sempre viaja sem mim…
– Não é verdade…
– Mas é que eu vou sentir muita saudade dela…
– Eu também, mas isso é bom, quando ela voltar tu abraça e beija bastante ela…
– Mas eu não quero que ela vá…
– Bom, mas aí não dá pra fazer nada, ela precisa ir, é trabalho da mamãe… Lembra quando o pai foi a trabalho pro Rio… Tu não ficou com saudade?
– Fiquei, mas o Rio é perto, a Cachoeira é longe…

Não foi fácil a despedida, mas como a mãe garantiu que seria rapidinho, ela entendeu.
A quarta foi tranquila

Na quinta tudo correu bem também, café, escola, lanche, desenhos, banho, jantar, e uma conversa…

– Sabe pai…
– O que?
– Eu nem tô mais com saudade da minha mãe…

Na cama, um pouquinho antes da história, mais um pouco de conversa, agora é o pai carente e  tão desacostumado a dormir sozinho desde aquele sábado de aleluia, com saudade que fala…

– Então filha, se quiser, tu pode dormir lá na cama com o pai…
– Não precisa pai, eu já sou grande, vou dormir na minha cama mesmo…

Blaaam!

Esse é o som da minha cara batendo no chão, juro que esperava ela dar um salto da sua cama e querer dormir comigo e suprir em mim a falta que sinto da mãe dela.

– Bom filha, que legal – como sou falso – acho isso muito importante, mas precisando o pai tá no quarto ao lado.
– Tá bom pai… Mas sabe o que é…

Fala agora com a voz embargada…

– Diz, filha…
– Eu gosto de dormir lá quando vocês dois tão lá… Porque se eu for eu fico com saudade da minha mãe…

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Na sexta Alice me pediu de manhã para ligar pra várias amigas, consegui falar com duas, mas elas estavam viajando.

– Eu também queria viajar…

Tentei explicar pra ela que São Paulo, no feriado, fica bem mais legal…
Vazia. Mas esse era justamente o ponto que não agradava ela, parecia que estavam só ela e o pai na cidade.
Mas ela sabia que íamos ter uma festa aqui em casa, um grande almoço com os amigos, uma bela reunião. O que ela não sabia é que viria uma criança, uma nova amiga pra brincar com ela, aliás, nem eu sabia ao certo, mas veio e elas se divertiram muito.

Quando me viu tocando ukulele na cozinha e gaita de boca, dançava com a amiga, participava feliz e no fim da música o incentivo.

– Nossa, pai, que legal esse música de deserto que você fez…
– Música de deserto…
– É! De cowboy…
– É verdade, filha, é Jonhy Cash…
– Você é bom nisso, pai!

Alice está na fase do incentivo.

Quando a nova amiga foi embora, às 22 horas, Alice foi dormir, não durou nem um parágrafo da história.

No outro dia fomos para a praça.

– E aí peru, posso ir de cueca na praça?
– Não pai! Não pode!
– Mas é tão legal só de cueca!
– Mas pai, vão rir de você!
– Não vão!
– Vão sim!
– Tá, então tu acha melhor de bermuda ou de calça?
– Ah! Eu acho melhor calça…
– Mas por quê?
– Porque de calça ninguém vai rir das suas pernas…
– Mas por que tu acha que de bermuda vão rir das minhas pernas. Minhas pernas são feias?
– Não pai. Mas vai de calça…

No domingo, hora de esconder a cesta de chocolates. Não fiz isso de maneira muito desafiadora – a partir dos seus seis farei, ela vai suar pra achar – porém, agora,  resolvi deixar um pouco mais fácil.

Soltei ela pela casa e disse.

– Bom filha, o coelho veio entregar suas coisas, mas ele deixou escondido por aí.
– ACHEI!

Bom, não subestime a inteligência de sua filha.

– Pai!
– O que?
– Faz de novo?
– Mas tu já achou, agora é só comer…
– Mas eu queria achar mais ovinhos e colocar nessa cestinha roxa, você esconde e eu vou lá ver desenho, não vou espiar e você me chama…Tá?
– Tá!

Agora fiz melhor, espalhei pela casa.

Achou e ficou feliz, todas as quatro vezes que fizemos esse ritual.

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Fomos almoçar na casa de uns amigos muito queridos. No início ela não queria ir e, no final, como qualquer criança, não queria ir embora.

– Pai, amanhã é Páscoa?
– Não, Páscoa é só hoje, amanhã é Tiradentes.
– O que é Tiradentes?
– É um moço, um inconfidente?
– O que é “inconfindente”?
– Foi um jovem com ideias avançadas que desagradou muitas pessoas por aí…

Segunda, feriado de Tiradentes, seu almoço predileto, macarrão-frio com maionese, parmesão e milho e mais uma praça, dessa vez com a sua amada amiga Lelê.

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Depois que deixamos sua amiguinha em casa, fomos para o mercado.

– Alice, tu gosta de bisnaguinha?
– Eu gosto!
– Levo?
– Sim…

Fazia tanto tempo que eu não comia bisnaguinhas, às vezes a gente precisa que uma menina de quatro anos nos lembre o quanto tu ama esse pão.

Fiz dois pra ela, fiz seis pra mim…

Amanheceu, e ela foi me acordar…Mentira, já era 10 da manhã.

– Ei, pai…Tô com fome.
– Tá…
– Pai, tem pastel?
– Não, e não se come pastel de manhã…
– Não, mas hoje tem feira?
– Não…
– Mas eu queria pastel…
– Mas pode ser que tenha…
– Feira?
– Não, pastel; o pai pode comprar massa e a gente faz de noite.

Nós pais, quando estamos sozinhos, deixamos a alimentação mais solta… No domingo depois da fruta, deixei ela comer um potinho cheio de parmesão ralado, que sobrou do jantar de sábado. Foi seu melhor café da manhã.

Voltamos ao papo pastel…

– Mas eu queria agora…
– Alice, tu sabe, que não existe “eu quero agora”…
– Ah! Tá bom…

Olho o relógio e tomo um susto. Salto da cama.

Faço duas pra mim e uma pra ela…

– Ei, só uma “bisgada”?
– Tu quer duas bisnagas?
– Não, tô brincando, só uma mesmo.

Enquanto me arrumo para sairmos…

– Pai, faz outra “bisgada”!
– Faço outra bisnaga, sim.

Fomos embora, entrou tarde hoje na escola.

– Tchau cara, boa aula!
– Tchau, cê me busca?
– Busco…

A vida de pai solteiro não é fácil, é bom ter alguém pra dividir essa educação e esse amor. Como faz falta uma mãe.
No entanto, nosso companheirismo está muito maior; essa páscoa evidenciou isso; me sinto tão bem com suas escapadas durante a noite para o meu quarto. E ela até passou a falar “o seu quarto” e não “o quarto da minha mãe”. E isso é uma conquista.

O que vou falar agora eu sinto todos dias, mas aproveito a Páscoa que é uma época de renascimento, para dizer que tudo que faço pra ela e com ela, ressuscita a minha mãe em mim.
Eu me vejo na Alice, e me enxergo como a Dona Roselene.  Nessa Páscoa estou sendo bem mais que um Tosco Pai, eu sou um pai avó.
Porém, ainda não consigo comer chocolates com frutas cristalizadas.


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