Tosco Pai: o preço da ausência



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Não vejo ela tem muitas horas. Segunda saí de casa às dezenove horas e vinte minutos.
Cheguei ela estava dormindo, dormi toda manhã, só ouvi sua voz. Pediu o suco de uva.
Eu estava imóvel, e confesso até, me fiz de surdo.
Eu precisava dormir.
Ouvi sua voz partindo, descendo as escadas antes da mãe.
Acho que quase ouvi elas da rua, mas daí virei pro lado, voltei a dormir.
Quando levantei, mal sabia eu, não veria mais Alice ao longo do dia.
Retornei pra casa às 17 horas, precisava de um banho para ir para o próximo trabalho do dia.
Abro a porta, casa vazia.
Tomo meu banho, coloco uma roupa, ligo o rádio, procuro o endereço, acho o lugar, saio de casa.
São 19:00 horas.
Volto para casa às 23:00.

Dessa vez não virei a noite.

Na anterior, dormi na frente do computador. Em cada foto que ele processava eu tirava um longo cochilo de sete minutos.
Nessa madrugada de terça pra quarta, cheguei da pauta e bebi uma cerveja, depois conversei com a minha mulher, ela dormiu, trabalhei até as duas da manhã. Fui para cama, queria conversar mais, e conversei então com ela dormindo mesmo, adormeci falando.
Às 05:04 toca novamente o despertador, o cliente precisa das fotos até às 8:00.

Fiz um café, editei e nomeei a coluna social da moda brasileira.

Ela acorda, me vê em frente ao computador. Fala tentando já subir no meu colo.

– Pai… Posso assistir o filme que você tava assistindo?
– Que filme?
– Aquele que você viu antes da gente ir pra festa do Joca…
– Cara, não lembro, e a festa era do Silveira…
– Tá… Mas era um filme…
– Cara, eu lembro que tu queria ontem, antes de ir pra escola, ver o clipe de uma banda que o pai assistia tocando o tema do Rocky Balboa, que ver isso?
– Quero…

Segunda ela antes de ir pra escola me viu assistindo esse vídeo e disse dançando, fazendo uma coreografia toda especial…

– O que é isso?
– É uma orquestra tocando o tema do Rocky Balboa… Gostou?
– Sim…
– Mas agora tem que ir pra escola…
– Cê me espera pra assistir…
– Espero, quando tu chegar da aula a gente assiste…
– Tá, então pausa! Não assiste sem mim…
– Tá bom, tá pausado. Boa aula!
– Tá… Mas me espera…

Desce as escadas com a Gessy.

Voltamos para a manhã de quarta.
Nesse dia, desligamos a TV.
Alice gosta de acordar e assistir alguns desenhos enquanto toma café. Porém, hoje eu não poderia, precisava deixá-la antes na escola, teria muito trabalho durante o dia. Vendo a tela do meu computador, assistimos a orquestra tocando a trilha mais motivadora do mundo.
O tema do Balboa.

Tantan, tantan tan tantan, tan tan tan, tan tan, tan tan tan tan tarantan…

Belo momento de pai e filha.

– Gostou desse som?
– Gostei! Mas agora eu quero ver um Elmo.
– Tá bom, a gente vê um e depois toma café…

Vejo que ela está com fome, acha o meu amendoim, nesses dias de trabalho intenso sobrevivo com amendoins.

– Ei, cara, o que tu tá comendo?
– Amendoim.
– Mas isso não é saudável pra comer de manhã… Não é hora de amendoim. Tu gosta de amendoim?
– Gosto! E pai, cê sabe que amendoim é um fruto seco? E ele é muito bom pra gente crescer forte, e é bom pra pele…
– Tá…

Na cozinha decido pela fruta.

– Vamos de pêra!
– Não, morango, eu quero morango.
– Boa ideia, morango.

Lavo os morangos, quando penso em colocar um pouquinho de açúcar, percebendo o quanto essa menina é muito igual a mim, principalmente no quesito paladar, faço raspas de chocolate em cima dos seus morangos…

– Pai? O que é isso?
– Chocolate.
– Chocolate?
– É, só uma raspinha pra combinar com o morango…
– Hummm
– Não quer?
– Quero, acho uma boa ideia…
– Beleza, então come aí enquanto eu faço o queijo quente…
– Eu não gosto de queijo quente, prefiro ele “esfriado”!
– Mas queijo quente é só o nome, o pai esquenta ele pra ele ficar bem derretidinho, mas tu pode comer frio…
– Mas porque então o nome é queijo quente se a gente tem que comer frio…
– Não, tu prefere frio, tem gente, eu por exemplo, que prefiro mais quentinho…

– Agora vamos pra escola, coloca tuas meias!
– Mas eu não consigo!
– Se tu não tenta tu não consegue. Vamos, coloca isso aí! E coloca esse tênis…
– Esse tá apertado…
– E esse?
– Esse tá muito grande…
– Tá mesmo, então coloca tuas botas…

Saímos de casa, ainda na porta do prédio ela se lembra…

– Pai, já que você tá de calça e tênis, vamos de bicicleta?
– Bah, guria, tu tinha que ter falado antes… Agora não vou subir pra pegar a bicicleta, fica pra amanhã…
– Tá bom! Amanhã cê lembra, hein?

Dois quarteirões de caminhada…

– Pai, me dá cacunda?
– Não!
– Ei, pai, não pode… Você tem que me dar cacunda!
– Não, não dou, as costas são minhas e elas doem! Não é mais quando tu quer, é quando eu posso. E hoje eu não posso, e, além do mais, já está acabando essa cacunda aí, tu já tá com quase cinco anos…
– Ei, mas eu não tenho cinco anos, ainda sou uma menina de quatro anos…
– É, mas tu tá grandona, tu já passou da minha cintura, olha só. E ano que vem tu já vai tá quase aqui no meu peito, depois assim, assim e assim, vai ficar bem mais alta que o pai!

Ela não disfarça o sorriso quando falo sobre o quanto ela vai crescer… No entanto, já retorna ao modo mau-humor de uma menina contrariada.

– Só que eu não tenho cinco anos ainda, pra você eu tenho cinco anos, mas eu sei que eu não tenho, eu tenho só quatro anos…
– É, pra mim tu já tem cinco…
– Mas eu dou vou ter quatro anos no julho…

Atravessamos a rua e, um pouco antes de chegar na escola, eu cedo. Levanto ela sobre meus ombros… E dou a cacunda (garupa).
Vendo o mundo de cima, começa a cantar o tema de um desenho…

Eu tenho só quatro anos, todo dia crescendo
Xeretando sou Caillou
Coisas novas para fazer, todo dia brincar
Aprendendo sou Caillou
Meu mundo gira descobrindo a cada dia
Mamãe e papai iluminando o caminho
Crescer não é tão fácil assim
Cada dia na vida é uma nova surpresa
Caillou, Caillou, sou Caillou
Hehehe… sou eu!

Entrego ela na escola, e terei mais um longo dia de trabalho pela frente.
Faço uma foto na porta, afinal, eu também vesti ela hoje, ela sempre reclama da minha demora, prefere vídeos, não gosta tanto de posar, ficar parada… Nos vídeos, ela pode dançar… E ama dançar.

Depois de todo trabalho de quarta-feira, ainda consigo fazê-la dormir. Chego e ela está acordada. Dou um beijo, entro no banho, saio do banho e ela me chama…

– Pai, cê fica um pouco comigo…

Fiquei duas noites sem ouvir essa frase que faz parte da minha rotina, e faz uma falta imensa não ouvir.
Fiquei ao seu lado e ela dormiu…

Quinta-feira.

– É tua vez…
– Não é nada… Eu deixei ela na escola ontem…
– Tu te livrou dela ontem…
– Ei, não fala bobagem… Me abraça e pede desculpas, onde já se viu, “me livrei dela”….
– Guri chato! Desculpa…

Acordei, de mau-humor, mas levantei, para quem estava sem ver direito a filha por dois dias, reclamar ninguém se atreve…
Ela sempre percebe meu mau-humor matinal. Não deixo ela se vestir como quer, não lhe dou a liberdade da escolha.
Entrego as roupas sem muita conversa.
Enquanto coloca suas meias, bate a cabeça.

– Pô Alice, te liga, presta atenção!

Sabendo que estou um pouco azedo e zangado, não chora, olha fixo e tenta não chorar.
Me vejo no olho dela e percebo o quanto erro como pai. Me xingo mentalmente…

– Pô Ricardo, te liga, presta atenção.

Dou um abraço, faço um carinho na sua cabeça e digo…

– Quando dói a gente chora, tá? Não segura…

Abraço mais ainda, reforço o carinho e digo, chora, chora o quanto quiser…

– Passou?
– Ainda tá doendo muito…
– Vamos pra escola… No caminho vai passar…

Entro na cozinha, pego um pedaço de chocolate.
Na saída de casa, ela avista a feira…

– Ei, hoje tem feira… Pai, cê me busca cedo pra eu ainda vir na feira e comer um pastel?
– Xiii, cara, a feira não vai rolar de pegar, ela termina muito mais cedo que eu pudesse te buscar…
– Ah, pai…
– Mas, assim, tu quer pastel quente ou frio?
– Frio…
– Então, eu busco um pastel pra ti, quando tu chegar da aula tu come. Tu quer de quê?
– Queijo!
– Carne queijo não é melhor?
– Não! Só queijo!

Imagino o quão ruim e sem graça é um pastel frio de queijo…

– Cara, tu já comeu o de frango com catupiry? Parece uma coxinha, mas é pastel…
– Eu quero esse então…
– Pois, eu acho que esse é bem melhor frio…
– Frango e catupiry!

Caminhamos mais um pouco, e no mesmo lugar onde me pediu a garupa ontem ela recomeça um assunto…

– Pai, por que eu tô crescendo tão rápido?
– Porque todo dia a gente cresce um pouco… O pai, inclusive, tá ficando cada vez mais velhinho. E também mais gordinho…
– É! Isso você fica bastante…
– Ei? Eu não fico gordinho bastante…
– Fica sim…Você nem tá correndo mais, tem que correr pra emagrecer, e nem me trouxe de bicicleta porque esqueceu…
– É, mas o pai não tem carro, a gente anda bastante…
– Mas a gente usa táxi e carro emprestado dos outros…
– Sou mais magro que muitos pais…

Atravessamos a rua. Coloco ela na cacunda, sou invadido por uma certa culpa por não estar mais fazendo exercícios…

– Ei, você tá me dando cacunda?
– É, cacunda é quase um exercício… Faço muita força…

Seguimos e do alto ela canta a mesma música de ontem…

Eu tenho só quatro anos, todo dia crescendo
Xeretando sou Caillou
Coisas novas para fazer, todo dia brincar
Aprendendo sou Caillou
Meu mundo gira descobrindo a cada dia
Mamãe e papai iluminando o caminho
Crescer não é tão fácil assim
Cada dia na vida é uma nova surpresa
Caillou, Caillou, sou Caillou
Hehehe… sou eu!

Minha filha ontem botou sozinha suas meias, comeu do meu amendoim e me explicou que ele é um fruto seco, falou sobre a importância dele para a saúde, ouviu a trilha do Rocky Balboa, dançou e, por duas vezes que dei a garupa, cantarolou uma música sobre os meus ombros que soa como uma indireta… ainda quer me convencer que tem apenas quatro anos.

Trabalhar é muito bom, às vezes nos afasta um pouco, cuidar dela dá um trabalho maior, mas percebo que é o que faço de melhor, talvez por isso o que eu recebo em troca não há dinheiro no mundo que pague.


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