Chega de saudade



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Saímos para viajar.

Fomos novamente para o sul, Santa Maria, Alice ama essa cidade. A menina foi me acompanhar, eu fui convidado para dar uma palestra e uma oficina de fotografia na UFSM, instituição onde estudei.

Quase todos os nossos parentes estão lá, existe um lado bom nisso, pois na mesma tacada vistitamos vó, vô, vô de novo, tias e tios, além dos muitos amigos. O difícil é ter que dividir a criança. Sempre admirei meus pais por isso, eles sabiam como dividir e administrar o tempo, sem dar menos ou mais pra ninguém. Dividíamos o nosso mês em duas viagens, uma para Santiago – que não é do Chile –, terra do meu pai, outra para São Gabriel, terra da minha mãe. As outras duas semanas eram da nossa família, na nossa cidade.

Agora, o tempo parece que nunca é suficiente. Estão todos na mesma cidade, e ninguém tem exclusividade.

Além da minha ida acadêmica, fui a Santa Maria para dar um beijo pelo aniversário do meu pai, são 75 anos do Tosco Avô. Mas ele anda triste. Não sei se pela idade ou por algumas limitações que esses dois terços de século oferecem, sei apenas que ele está diferente, muito mais quieto.

Quando o ônibus entra na cidade, mando uma mensagem para um amigo.

“Estou chegando.”

“OK, estou indo te buscar”

Chegando na rodoviária, lá está meu grande amigo.

Descemos eu, Alice e o Bob Esponja, nosso companheiro de estrada.

Alice está há horas viajando, já dormiu e acordou várias vezes, ainda sonolenta pede colo e eu nego.

– Pega o colo do tio Cairale…

O olhar de recusa da menina diz tudo.

Pai é pai.

Porém, sem o colo eles passam a conversar enquanto eu retiro as malas.

– Então Alice o teu pai anda se comportando?
– Sim, mas eu tô me comportando mais que ele.
– Acredito…

Já no carro, indo para casa do meu pai, Alice, agora muito ligada, puxa outro papo com o tio…

– Sabia que da outra vez que eu vim pra Santa Maria, eu também vim sozinha com meu pai? Mas aí minha mãe veio e encontrou eu e o meu pai no casamento que eu fui daminha, mas agora ela não vem porque ela tem muitos e-mails…

Chegamos na casa do vovô, e seu sorriso está tímido, visivelmente está feliz pela chegada da neta, mas o coração bate num ritmo diferente e ainda insiste em deixar seu sorriso um pouco preso.

Algum tempo depois, porém, depois do vovô, Alice dorme. Já eu, fico ajustando minha palestra e atualizando meu site.

Amanhece e Alice quer visitar sua avó materna. Eu e meu pai vamos almoçar juntos na universidade, para que eu fique bem próximo e não me atrase. No carro, o maior sinal da tristeza do meu pai: ele não ligou o rádio, não cantou. Percorremos todos os caminhos quietos, eu quebrava um pouco o silêncio tentando uma conversa e Alice também com suas composições. Meu pai inventava musiquinhas, sempre teve boas seleções musicais no seu carro, não lembro um dia de entar no carro e não ter música. As canções de Alice fazem muito mais do que quebrar o silêncio, animam um pouco esse vovô que subitamente entristeceu.

Depois de deixarmos ela na casa da avó o silêncio volta ao carro…

A partir desse momento, eu e Alice vamos viver momentos separados. Porém, tentaremos seguir uma agenda programada por mim, uma força tarefa para trazer de volta o sorriso perdido do vovô Renato.

Segundo nossa escala, por vontade da menina, essa noite posaria na casa da vovó, depois iria para casa da minha cunhada.

Sexta-feira de tarde a menina é levada para fazer compras no shopping, experimenta alguns sapatos e se apaixona por uma sandália preta cheia de brilhos. O sapatinho não é assim tão maravilhoso quanto a tia e as primas imaginavam e elas decidem procurar outro.

– Por favor, guarda esse pra gente que vamos dar mais uma voltinha.

Não adianta tentar enrolar a menina, ela não cai mais nessa.

Saindo da loja ela lembra que gostou muito daquele.

Ela voltam e compram.

– Tá bom! Agora vamos procurar outro.
– Não, só quero esse.
– Tudo bem, mas agora vamos procurar um diferente, outra cor, outro modelo.
– Não, só um tá bom.

Não acompanhei esse fato, apenas me foi relatado, mas se lá estivesse, teriam que ter chamado o SAMU – a causa da morte, orgulho, tanto orgulho que o corpo não aguentou.

Alice tem muito de mim e da minha mulher, mas eu e Lucia sempre soubemos que ela irá transgredir um pouco as nossas regras.

A mãe não é muito ligada em brilhos, maquiagem e acessórios femininos, já ela, ama.

Eu não gosto de dançarinos e flashmob, sou muito sensível à vergonha alheia. Alice está sempre dançando, e pouco importa o estilo musical.

Eu e minha mulher (fotógrafo e designer) sempre brincamos que ela vai querer fazer faculdade de contabilidade, algo dentro das exatas. Ou que quando ela tiver 16 anos eu vou abrir uma de suas gavetas e vou encontrar granola e açaí ou, pior, quem sabe até um abadá.

– Alice, isso é seu?
– Não, pai, é de uma amiga e ela pediu pra eu guardar…

Ainda é sexta, é de noite. Vou até a casa da minha cunhada roubar um pouquinho a criança pra gente tomar sorvete com uns amigos muito queridos que estão muito saudosos.

Toda vez que ia buscar Alice na casa de alguém para fazer um programa comigo ela dava um mini-escândalo. Ela acha que eu não tenho palavra, que ia roubá-la e ela não poderia aproveitar a casa das primas e não iria montar a árvore de natal que lhe foi prometida. Ela já tinha montado uma na noite de sexta da casa da vovó, agora faltava montar na casa da tia.

Levo ela pra um canto e tento explicar. Ela está com sono e sem paciência e eu apenas sem paciência.

Incrível como vou do pai legal ao pai tirano em poucos segundos. Sou um pai bipolar, enfim, sendo gaúcho, sou tripolar.

A caminho da sorveteria ela dorme.

Tomamos o sorvete e levo ela de volta pra casa da minha cunhada, dormindo, algo que pode ser fatal para mim.

Com ela desmaiada no colo, recebo um olhar de reprovação e um alerta.

– E a árvore de Natal?
– Amanhã terá toda a manhã para montar a árvore…
– Quero ver tu falar isso pra prima…
– Opa, falo sim, traz ela aqui que eu digo que amanhã terá todo o dia para montar a árvore…

Felizmente, havíamos esquecido de dar o remédio para a criança, tive que acordá-la deixando todo mundo contente e minha pele a salvo.

Ela montou a árvore e entrou madrugada adentro, segundo relatos. Enquanto todo mundo agora estava com sono, a menina estava com energia de sobra. O suficiente para acender as lâmpadas de toda a decoração de Natal da casa.

Agora é sábado. Alice sai para brincar com uma outra prima, tem uma agenda já programada – agora não mais por mim. Porém, na noite de sexta, quatro cachorrinhos nascem na casa do vô Renato. Meu pai veio me acordar no sábado de manhã, os quatro cachorrinhos fizeram renascer um pouco o sorriso do meu pai.

Levo Alice para conhecê-los.

Ela fica emplogada, mas não como eu esperava, vai para o piano da avó, e segue compondo. Só três pessoas tocam aquele piano: eu, Lucia e Alice. O piano é o que mais nos aproxima da vovó Roselene, sinto quase como se eu estivesse beijando e abraçando minha mãe que partiu quando eu tinha doze anos.

O dia acaba, teremos um almoço de domingo com o vovô Renato, depois a despedida lá na vovó com as tias e as primas e depois um beijo de tchau no vovô, e uma cerveja com os amigos do Tosco Pai, onde ela tomará seu suco de uva.

Dentro de mim a vontade é de ir embora e reunir o meu quarteto: eu, Lucia, Alice e Baba (a cachorra). Ter de volta minha tão amada rotina, fazer o café, levar pra escola, cacunda pelo bairro de Pinheiros.

Viagem difícil, longa, Santa Maria a Porto Alegre de ônibus, vôo com conexão em Florianópolis e eu chego surdo – pois meu ouvido morre dentro de um avião – e muito mal-humorado. Almoçamos todos juntos em sinal de boas vindas, Alice vai pra escola, Lucia pro trabalho. Eu tento trabalhar, a cabeça quer, mas o corpo não. Adormeço.

Um banho em familia termina nosso dia. Alice até comenta na mesa do bar da rodoviária que gosta de tomar banho de trio. Fizemos muito isso quando ela era bebê, deve ter muito boas recordações de todo amor que cabe dentro de um box, apertadinhos debaixo do chuveiro.

Ela dorme, ela acorda, ela tosse, ela chora de saudades e tosse. Tem(os) uma noite horrível. Fica falando da saudade a cada tossida que a faz acordar.

Enfim, pega no sono. Nesse momento estou deitado no colo da minha mulher, que me diz…

– Sinceramente, não consigo entender o que teu pai tem, eu nunca passei por isso…
– Eu também não, mas ele tá triste…
– Pra mim, é aquela velha história do deixa de frescura e bola pra frente…
– Pois é…

Nesse momento, fica tudo claro na minha cabeça e eu caio em um choro compulsivo. Meu pai é viúvo, e, assim como eu, tem uma grande lacuna na vida, 21 anos de lacuna. Imagina perder a mulher que tu sempre amou, teve quatro filhos com ela e a cada ano de vida tu te lembra que ela não está mais contigo e ela não está junto para aproveitar a neta linda que o caçula deu.

Como ele mesmo disse quando soube que teríamos um filho, beijando nossas testas:

– Os dois nenês fizeram um nenê.

Tudo que o meu pai quer era o que eu queria nesses quatro dias de Santa Maria, estar junto da minha mulher com a minha filha, vivendo minha rotina.

Meu pai quer a rotina dele de 20 anos atrás. Antes dela morrer.

O que meu pai está fazendo é apenas se dando o direito de ficar triste, lembrar das pessoas que ele ama, lembrar da grande mulher e companheira que lhe ajudou a construir uma bela e amorosa família.

Pai, pode chorar. Às vezes nossa educação sulista diz a bobagem de que homem não chora. Tu mesmo já me disse isso.

Mas chora, Vovô, homem chora, sim, e um grande homem como tu, pode chorar bastante.

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