Tosco Pai: volte quando quiser



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– Pai, por que as pessoas ficam tristes quando a gente morre se a gente volta?
– Olha, nem todo mundo acredita nisso. Eu acredito. Acho que quem morre não fica triste, mas quem fica aqui fica um pouco, mas aprende a viver, continua vivendo. Quando minha mãe morreu, fiquei triste, foi difícil, mas hoje tenho tu por aqui, e há quem diga que tu é ela.
– O quê?
– Bobagem, filha, o que digo é que às vezes uns precisam sair para outros chegarem.

Sempre acreditei nisso, e isso confirmou quando ela nasceu: nesse dia morreu o meu Tio Chico. Tio Chico (de nome Ivan Castilho Belmonte, sabe-se lá o porque era Chico) tinha um bolicho de esquina, como se diz no Rio Grande do Sul, bolicho é um bar. Eu ia muito nesse estabelecimento com meu pai, que pouco ou quase nada bebia, mas sempre me pagava um pastel, um refrigerante e algumas rapaduras – mas essas Chico nunca cobrava. Pega o que tu quer, dizia.

Tio Chico me ensinou algo importante: apontar o jogo do bicho. Atendia o caixa pra ele e quando aparecia alguém pra jogar no bicho, eu fazia as marcações, claro que sobre sua tutela.

Esse tio que não tinha meu sangue, tinha por mim muito carinho, e eu, o mesmo por ele. Era o grande amigo de meu pai, se xingavam, falavam mal um do outro, mas isso era feito com um sorriso no rosto. Brincavam de briguinhas.

“O Chico era um danado”, todo mundo falava. Uma vez, fui com ele para o campo e pediram para ele sangrar uma ovelha, estávamos carneando o animal para um churrasco de família.

– Deixem o Chico! Sangrador melhor não há!
– Não, tô velho!
– Para, Chico. Tu é bem bom nisso, não te fresqueia.
– Não é isso, a gente vai ficando velho e o coração mais mole.

Nunca esqueci deste diálogo, o bicho lá pendurado e o bom Tio Chico sem forças pra fazer o que fazia com maestria na juventude.

Tio Chico deixou esse mundo quando nasceu Alice.

De um lado meu pai comemorava o nascimento de sua primeira e até então única neta. Algumas horas mais tarde, chorava a partida do amigo-irmão.

A vida é assim. Com sua lei da “fila anda”.

Quando minha mulher descobriu a doença, meu grande medo foi ser pai viúvo.

Foi?

Sim, perdi o medo, a gente focou na cura e um dia chorando, um sábado, olhei pra Lucia e ordenei:

– Eu não tenho capacidade de criar essa criança sozinho. A gente fez junto, a gente vai criar junto. Tu vai ficar aqui!

Ela ria, chorávamos e riámos ao mesmo tempo. Creio que ela ria talvez por ser a primeira vez que iria acatar uma ordem minha sem contestar.

Hoje, apenas vejo ela careca, às vezes, poucas vezes mais fragilizada, mas enxergo muita força. Não é o seu momento, não é a hora que ela deixa esse mundo pra outro ou outra entrar.

A gente ainda vai ter muita briga pela frente, infelizmente, mas muito mais amor, felizmente, pra compensar todo e qualquer desentendimento bobo. Pois a cabeça confusa procura respostas, soluções, não apenas quem tem ou não razão, acima de tudo a gente busca compreender porque resolvemos dividir esse mundo juntos. E faz tempo que a gente divide.

Esse não é um país de maravilhas, nunca foi, o maravilhoso é fazer parte do mundo, do jeito que ele é.

A morte na família faz a gente crescer, mas é um crescimento forçado, e o que é forçado não é nada bom. Nós, os meninos, precisamos entender bem mais esse conceito.

Se eu parar pra pensar de 1979 pra 2016, muita coisa aconteceu, muitas pessoas saíram da minha vida, no entanto, a quantidade de gente que chegou… “yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar”.

Se eu enumerar cada ano e cada pessoa que chegou e me ensinou, o saldo é muito mais positivo.

Estar vivo é ótimo.

E cada ano conta.

Ano passado, a morte veio bater na minha porta, olhei pra ela e disse: dessa vez não. Em 1992 minha mãe, 2014 meu cachorro, muitos parentes e muita gente que eu não conhecia ou que conheci num dia jogando truco, comendo churrasco, tomando cerveja e que depois saiu, e não voltou.

Na virada dos anos, conto 3 pessoas que se foram, e é onde fico triste, onde penso muito em estar vivo. Sendo ou não um bom ano, acredito que na frente tudo melhora, o tal do andar da carruagem.

Recentemente, alguém foi embora, não o conhecia, conheço pouco os que ficaram, conheci sua esposa nos corredores da escola, mas acho que nunca conversamos, só sabia seu nome, achava que ela era parente de um pintor famoso, passei o dia pensativo, pensando na sua perda. Na sua dor.

Pensei no ano que todos resolveram maldizer. Famigerado 2015, chegou e saiu aprontando das suas. Embora culpar o tempo é o mesmo que culpar o sistema, é empurrar a culpa para o outro.

Cada ano é diferente, quando não apronta contigo, apronta com outro, alguns tu conhece, outros nem sabe quem são, todo mundo tem sua batalha, seu fardo, sua guerra e, sim, sua paz.

Tem coisas que a gente não escolhe, não tem o poder de mudar, temos mesmo é que mudar o foco, o pensamento tem que ser outro, pra cada um que vai, tem alguém que chega para os muitos que ficam.

– Mas, filha, nem todo mundo acredita nisso.
– Como assim?
– Nessa coisa de voltar pra Terra de novo, tem gente que acha que morreu e acabou. Mas o Deus que tu acredita ou eu acredito não é o mesmo que a tua vó acredita. Ela é budista da linha tibetana, o Luiz é budista, mas dos japoneses, e tem gente que acredita que Jesus é filho de Deus, e que esse Deus é o maior de todos. Eu acredito em um pouco de tudo, e que todas religiões tem suas verdades, acredito muito numa Deusa, na Mãe Natureza.
– Eu acredito um pouco no Deus pai do Jesus e no mesmo Deus que você acredita, na Mãe Natureza.
– Legal. Mas eu não sei de nada. E sobre isso eu ainda tenho muito que descobrir.
– Eu já descobri algumas coisinhas sobre o Deus.
– Eu acho que eu só vou ter essa resposta no dia que eu morrer.
– Ah! Mas você vai demorar pra morrer!
– Sim… Acho que sim.
– Vai, sim.
– Vou, mas imagina só, tu tá lá com 30 anos e de repente eu morro.
– Não! Quando eu tiver 50.
– Tá bom. Tá lá tu com 70 anos…
– Eu ainda prefiro 50.
– Beleza, 50 anos, eu morro, mas aí a tua filha, se tu tiver uma filha, tem uma menina, e eu volto quem sabe sendo essa tua netinha.
– Pai!
– O quê?
– Você volta menino.
– Não. Eu posso voltar menina. A gente não tem como saber. Eu gostaria de voltar menina. Acho vocês bem legais.
– Quer dizer que eu posso voltar como um menino?
– Sim.
– Mesmo assim eu prefiro voltar como menina de novo.
– Tá certa!

Enfim, para os que foram, fica o nosso volte sempre, ou como Alice tem ensinado eu e Lucia:

– Voltem quando quiser, pois quando você fala “volte sempre” você tá exigindo. E isso não é legal.

Voltem quando quiser, e saiam quando preciso for.

Feliz 2016.

 


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