Tosco Pai :: É tudo trabalho

Coluna-Tosco-Pai#16Sempre gostou de trabalhar.
Vejo isso de uma maneira positiva, acho que desde os dois anos de idade tomou essa consciência. Um dia, caminhando com a mãe, perguntou porque as pessoas dormem na rua.
A mãe disse que é porque eles não tem outro lugar pra dormir, que muitas não têm trabalho e com isso não ganham o dinheiro suficiente para pagar um teto.

Nessa época, Alice, como toda criança, tinha uma visão negativa do trabalho, achava que o trabalho era um vilão que sempre afastava ela dos pais.
Foi ótimo, claro que um exemplo um pouco duro para uma criança de dois anos, mas toda vez que Alice ameaçava ficar triste quando tínhamos que trabalhar, Lucia perguntava…

– Tá, mas se eu não trabalhar, não vamos poder pagar nossas contas, não poderemos comprar suco de uva, nem chocolate e nem pagar pela nossa casa, você quer dormir na rua?
– Não, eu não quero dormir na rua…

Alice tem uma linda relação com Gessy, nossa fiel escudeira, ela limpa a casa e a nossa alma. Com Gessy não existe tempo ruim, ela até pode reclamar do céu nublado, da chuva, mas faz isso sorrindo, prefere os dias quentes, o calor. Gessy não sabe usar o facebook, até tem uma conta lá, mas como não reclama de nada, o Facebook parece inútil.

Gessy nunca forçou nada, as coisas aconteceram naturalmente. Enquanto Gessy lava a louça, sempre vem uma cabecinha dourada meio avermelhada, chegando cada vez mais perto e diz…

– Posso te ajudar?
– Pode! O que você quer fazer?
– Quero lavar a louça!

As duas também guardam as roupas, arrumam as camas, claro, Alice prefere pular nelas, usá-las como camas elásticas, mas quando Gessy fala sério ela acata, e recomeça a labuta.

Quando tinha um ano, comprei pra ela um rodinho e uma vassourinha. Não sou machista, não quero minha filha varrendo e passando rodo, quero ela independente, trabalhando. Minha mãe fez isso comigo, eu tinha que secar a louça, atividade inútil, arrumar minha cama, passar roupa, lavar a cuequinha no banho, e pra minhas irmãs ela dizia que tinham que estudar, trabalhar e não dependerem de homem nenhum, enquanto eu e meu irmão viramos excelentes donas de casa, minhas irmãs começaram cedo suas independências, um pouco de inversão de papéis, muito útil para os dias de hoje.
Nunca fui menos homem por cozinhar, lavar a louça… mentira, quem lavava era meu irmão, eu ficava com a atividade inútil de secá-la…
Enfim, hoje vejo que dona Roselene foi uma visionária e preparou bem os filhos e filhas para o futuro. Pode ir embora tranquila.

Quero o mesmo para minha guria, quero ela pronta, sem precisar passar por apertos e quando esses vierem que ela não se assuste, não seja pega de surpresa. Apenas faça, resolva.

Além dessa enorme parceria que as duas nutrem, Alice ainda dá aulas de inglês para Gessy.
Nos dias que Gessy vem aqui em casa, Alice prefere que ela a leve na escola e, no caminho, sempre algumas noções de inglês para amiga.

Umas das últimas foi quando chegaram no destino e entrando Alice lembra-se de algo muito importante, olha pra trás e diz.

– Gessy, hug!
– O que foi? O que você esqueceu?
– Hug?
– O que é?

Para Gessy, que só via os bracinhos abertos, pensava que a guria tinha esquecido de algo, e tinha, mas não era nada material, era apenas afeto puro, algo que é delicioso dar e receber, principalmente se a gente vai ficar algumas horas sem ver essa pessoa tão querida.

– Gessy, give a hug…
– Aí lascô!!!
– Gessy, hug é abraço!
– Ah!!! Opa, dá aqui um abraço!

Agora sim, ela poderia entrar tranquilamente na escola e Gessy voltou pra nossa casa com um sorriso no rosto e uma nova palavra para seu vocabulário internacional.

O trabalho enobrece é que ouvimos todo tempo, o dinheiro não traz felicidade é outra das verdades. Sim, não trás, nós que precisamos ir atrás dele para encher nossa geladeira, pagar uma escola, nossa morada. O trabalho às vezes separa as pessoas. Muitas vezes Alice ficou sem dar o beijo de boa noite na mãe que precisava entrar madrugadas em fechamentos dentro de uma redação. No entanto, ganhava um beijo de bom dia.
Eu muitas vezes cobrindo eventos de moda ou cobertura social, eu entrava as noites trabalhando, buscava ela na escola e comentava que tinha que trabalhar.

– Você vai trabalhar em casa?
– Não, vou trabalhar na rua…
– Mas eu queria que você trabalhasse em casa…
– Bom, filha, às vezes o pai pode trabalhar em casa, em outras não…
– Mas você vai voltar?
– Sim, é o que mais quero!

Semana passada viajei de novo, fui trabalhar e precisaria ficar pelo menos 48 horas fora de casa…
Tomávamos café antes de escola e assistíamos nosso desenho favorito.

– Filha, o pai vai viajar!
– Comigo?
– Não! Dessa vez vou sozinho, vou a trabalho…
– Pra praia?
– Não, pra praia eu vou contigo, essa é uma viagem de trabalho eu vou e já já eu volto. Mas eu vou sentir saudades.
– Eu vou sentir mais…

Confesso que é muito bom ouvir isso. Dá um poder tão grande, um barato enorme, não existe nada no mundo capaz de energizar tanto uma pessoa. Não me imaginava com filhos nesse mundo, hoje vale muito o clichê de que não consigo mais me enxergar sem ela.
Num desses dias Gessy supriu minha falta, em outro um querido casal de amigos, então eu consegui antecipar minha viagem, ganhei umas horas a mais, desci uma trilha no mesmo dia, coisa que para quem é acostumado com trajeto disse ter sido heróico ou até uma loucura. Mas para quem tem filhos a gente tem sempre um estímulo a mais para voltar pra casa. Para trabalhar em dobro.

Antes de subir toda trilha, liguei pra casa, falei com minha mulher e pedi para passar o telefone para Alice…

– Oi, Alice! Tudo bem cara?
– Oi, pai! Tchau, pai!

Foi uma conversa rápida, pra gente desligar o telefone rindo. A noite tá aí, o dia vai passar e logo, logo ele tá de volta.
A guria do jeito dela está trabalhando para não dar espaço pra saudade. É tudo trabalho.


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