Tosco pai :: Meu dente caiu

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Meu mundo caiu, digo, meu dente caiu, porém, tal como a música de Maísa, foi um drama.
Todos colegas já estavam banguelas, todos amigos já eram chamados de homenzinhos e ouviam a piada da porteira.

– Você me lembra a música do Sérgio Reis!
– Qual?
– O menino da porteira!
– HAHAHAHAHA

Não eu.
Seguia triste por ter dentes fortes.
Alice vive o mesmo drama.
Viramos pais e mães nessa vida pra reviver situações que nos incomodaram de alguma forma na infância e, hoje, podemos ajudar a nós mesmos e os atuais envolvidos.

– Pai!
– O quê?
– Quando meu dente vai cair?
– Um dia filha, o de todo mundo cai.
– Mas o meu não cai, pai! O da Helena já caiu, o da Clara já caiu e a Clara é até mais nova do que eu.
– Mas é diferente guria, tu tem os dentes do pai, os meus demoraram pra cair, só quando eu tinha sete anos e tava na segunda série.

Os dentes do Forgiarini já nem pequenos eram mais.
A Viviane era bem bonita com “porteirinha”. E os meus? Continuavam lá, inteiros, fortes do mesmo tamanho, parelhos, brancos, um sorriso de neném. E eu já tinha sete anos.
Esperava pelo dia, fiz planos.
Quando ele estiver mole vou amarrar ele na porta e vou puxar. Como fazem nos desenhos. Não! Melhor: mordendo uma maçã e ele vai ficar grudado!

– Pai!
– O quê?
– Meu dente não cai.
– Ué, mas vai cair.
– Mas ainda não caiu!
– Olha, Alice, um dia ele cai, o do pai…
– Eu sei, só caiu quando você tinha sete anos.
– Então?
– Ah! Mas ele não cai.
– Deixa de ser ansiosa guria, parece teu vô Renato!
– Eu sou neta dele e sua filha.
– Então, meu dente caiu quando eu tinha sete anos. Espera.

NOSSA!

Meu dente tá mole. Meu deus! Quando vai cair? Tá. Vou falar para todos meus colegas. Mas eles vão dizer que eu sou nenê e que só perdi agora. Eu sou o único com todos os dentes na segunda série. Vou ficar quieto. Prestar à atenção na aula. Esse dente mole é legal, mas eu não lembro o que professora falou.
Língua pra lá, língua pra cá pro dente derrubar!
Droga, a professora apagou o quadro.
Quando chegar em casa vou arrancar esse dente.

– Pai!
– Que foi Alice.
– Eu já tenho sete anos e meu dente ainda não caiu.
– Ah, cara, tu acabou de fazer sete anos.
– Mas você disse que meu dente ia cair quando eu tivesse sete anos.
– Cara, quem sabe tu para de comer parmesão, tomar tanto leite que o dente fica fraco e cai.
– Não vou parar de tomar leite e comer parmesão.
– Ué! Come uma maçã! Se tu comesse mais as frutas. Aliás, quando comer, não come ela picada, dá uma dentada na maçã que ele fica lá.
– Cê fez isso?

Agora é dedo indicador e boca aberta!
Vai dente, vem dente, prum lado, pro outro. Não, pra esse lado dói. Meu Deus que aflição.

– Amarra num barbante que eu puxo a porta.
– Não! Que medo. Vai sangrar? Vai doer? Não!

Fechava o porta do banheiro e lá ficava tentando persuadir o dente a sair.Toscopai_Jogo-do-brasil
Na paz, sem violência. Preciso de ti, tu precisa de mim.
A fila do banheiro aumentava junto com as ideias bizarras de como arrancar um dente da boca vindas de toda família.
Por algumas horas eu esquecia. Voltava a lembrar nos almoços, no meio das aulas, lanche da tarde.
Esperava uma hora que caísse.
Minha mãe tinha uma pulseira de ouro com os dentes de todos os filhos. Tinha um pingente para cada um, quatro pingentes, e um dente de cada um, três dentes.
O meu, ainda insistia na boca e eu queria ele na pulseira. E quando eu menos esperava…

- Pai! Meu dente!

Fomos assistir um jogo de futebol, o primeiro da vida dela. A mãe comprou antecipado um jogo das olimpíadas, não sabíamos o jogo que veríamos, calhou que deu Brasil na disputa pelo terceiro lugar. Poderíamos ver o Brasil ganhar uma medalha, não foi desta vez. O Brasil perdeu, Alice pode gritar gol, porém já não havia mais tempo. Fim de jogo. E nenhuma tristeza, só a alegria de Alice.

– Meu dente tá mole! Olha só.

Toda orgulhosa. Dezenove de agosto, exatos trinta dias do seu aniversário.
O dente na boca a mantém como menina, como minha criança.
Só que ela tá tão alta, argumentando, me dando conselhos.
Pirralha, nem perdeu os dentes.
Já, já vai perder.
Tenho medo desse dente cair.

Tá crescendo rápido.
Agora vai até em show de rock com os pais e mais duas amigas, dos pais, mas que tocam numa banda, com ela.
Olha a confusão que tu faz na minha cabeça sua pequena grandona!
É tanta antítese e paradoxo.
O show começa, ficamos em silêncio.
Ela canta as músicas. Comenta que conhece a banda e que a música “Culpa” é a mais famosa da banda. Está entre as amigas e colegas de banda.

Termina o show.
Termina o sofrimento, Alice exibe orgulhosa seu dente na mão.
O atestado de que é uma menina, uma criança e não é mais um bebê.
Por mais que eu queira na maioria das vezes. Não é mais.

– Vou colocar o dente debaixo do meu travesseiro, daí a fada do dente vai entrar “sorradeira” dentro do meu quarto e pegar o meu dente e trocar por dinheiro.
– Ah é? E o que ela faz com o dente?
– Olha, se tá escovado ela faz um colar bem lindo e brilhante. Se não tiver ela também faz um colar, mas aí não fica brilhante.

Ela chegou cansada, esquecemos da informação, dormiu sem escovar, mesmo assim ganhou R$ 20,00 pelo dente.
Não tive fada do dente, não ganhei nada pela queda do meu, caiu indo de um lado para o outro impulsionado pela língua, não me lembro nem de ter meu dente colocado na pulseira da mãe.
Lembro apenas de sentir essa mesma satisfação dela de mostrar o novo sorriso feliz por estar crescendo.

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