Toscopai :: A Peru e a perua

Ricardo-Toscani_EducacaoVolto pra dentro da minha cabeça e me pergunto: por que eu chamo ela de peru?
A palavra sempre achei engraçada, o bicho também. Um assovio e eles em coro fazem glu glu glu. Chamo agora até o filho dos outros de peru, e minha  mulher. Todos que amo num dia de bom humor.
Clara, uma das grandes amigas da Alice sempre lembra que com ela é diferente.

– Não sou peru!

Outro dia, me veio à cabeça o porquê: um avestruz que a Alice tinha, um de seus primeiros brinquedos, e eu falava pra ela.

– Olha esse Peru! Hahahahaha. Peru!

Ria sozinho, de uma palavra tão simples. Sempre que ouvi, ri, simple assim, assim como “bisnaga” fazia espelir coisas pelo nariz, de água a leite, do branco ao verde. Alice fala “bisnague”, umas das poucas palavras que ainda fala errado. Não me atrevo a corrigir, tenho aquela teoria: eu falo certo e um dia ela aprende, um dia ela vai me questionar, como questiona tudo.

– Bisnaga ou bisnague?
– Baunilha ou baumilha?
– Granulado ou grandolado?
– Alpinista ou alfinista?

A escola ensina, eu e a vida também. Não precisamos colocar o selo, “tá errado a gente fala…”

O tema é peru, nem isso, o tema é perua, o transporte escolar. Afinal, perua é uma palavra bem paulistana, lá no sul é transporte escolar, van ou kombi. O termo perueiro só fui conhecer e falar depois que Alice nasceu. Tem palavras que ainda me nego falar. Tem que acontecer algo importante na minha vida, como o nascimento da filha – ou um bullying na padaria, assim parei de pedir cacetinho e, hoje, só falo quatro pãezinhos por favor.
Voltamos ao tema.
Alice sempre quis andar de perua, mas tem um pai que anda de bicicleta e estudou sempre muito perto.
Passou por duas mudanças de escola e, quando foi para rede municipal, tinha muitos amigos que chegavam com o tio Agostino.

Um dia, pediu enquanto subia na bicicleta à caminho da escola:

– Pai você pode fingir que é o tio Agostino da perua e que eu tô numa perua com meus colegas?
A gente fingia.

Afinal, para mim era só continuar quieto, atento ao trânsito enquanto ela e os colegas conversavam no fundo.
Ela fazia a voz de todos.

A nova escola é longe, e não foi fácil arrumar a perua. Só conseguimos um trecho, a ida, mas isso já me ajuda muito.
Antes eu tinha que preparar o almoço, almoçar às 11 (quase sem vontade), ao meio dia no ponto de ônibus, entregar a criança e programar agenda de trabalho. Depois, parar no meio da agenda e ir buscar. Muitas vezes contando com a mãe e, em outras, com amigos.
Nunca sozinho, felizmente.

Agora só busco.
Tem coisas que não saem da cabeça, e a maioria delas tem a ver com a escola. Eu uma vez já disse: “tomei muita coisa, já tive alguns baratos, mas nenhum deles supera a sensação maravilhosa de buscar a criança na escola”, essa pequena saudade temporária é maravilhosa e sempre temos muito o que conversar, depois desse adorável afastamento necessário para ambos.

 

O primeiro dia de perua entra nesses momentos.

Alice almoçou, fez tudo com pouca enrolação e até reclamou que a perua ainda não tinha chegado. Quando entrou, a felicidade foi imensa. Era tudo o que ela queria, do jeito que tinha pensado. Feliz com o cinto de segurança exclama:

– Tem até TV!

Uma perua pra Peru. A felicidade está no simples.

Pensa numa criança contente. A empolgação dessa menina inundou meu coração.

Durante uma semana ainda me emocionei com ela indo embora diante dos meus olhos, sempre me abanando. Meus olhos ainda se enchem de água.

Ontem, tivemos uma pequena briguinha depois da natação porque ela não colocou uma camiseta na mochila que pedi três vezes para ela colocar, tive que improvisar um agasalho com uma bandana e a toalha.

Toda segunda, ela pede pra Gessy levar ela na perua.
São grandes amigas.

Ontem, como um tratado de paz, crente sobre o efeito que a perua tem em mim, pediu.

– Pai, pode me levar na perua?
– Eu?
– É!
– Hoje?
– Sim, papai, você!

Eu fui, abracei, beijei, ela foi pra janela, me abanou, mandou beijo, partiu.
Eu de novo sorri e marejei.
O plano dela deu certo.


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