O X da questão

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Meu filho tinha cerca de um ano e meio quando esta questão – que nem deveria ser questão – apareceu. Nariz é nariz, orelha é orelha, mão é mão. E aquilo fofinho e peludo no meio da perna da mamãe? Qual é o nome disso? Hein, hein? Ele mal sabia falar e já me botou num debate ideológico. Por que raios eu deveria ficar tão constrangida ao me referir a ela… Ela? Ela quem?

 

Antes de ser mãe, sempre fui contra essa história de inventar codinomes para as partes íntimas do corpo. Primeiro porque é patético, vai. “Filho, esta aqui é a borboletinha da mamãe”. Eu não tenho borboletinha, nunca tive. Por que vou inventar um nome desses para meus filhos? Segundo porque acredito que é na linguagem que o preconceito começa. Os órgãos genitais são um baita tabu desnecessário. Tanto que muita gente tem dificuldade de pronunciar até para o médico alguns nomes como vagina, pênis, clitoris, ânus.

 

Até aí, vá lá. Acontece que também fica igualmente ridículo (ou melhor, estranho) falar estes nomes literais para uma criança tão pequena. Imagine a cena digna de um filme de Woody Allen: “Benjamin, venha aqui, vamos lavar sua nádega direita. Abaixe para lavar bem o ânus e retirar os restos fecais que podem estar no seu saco escrotal.”

 

Meu marido – que, por praticidade, prefere elaborar menos estas questões – resolve tudo mais rápido. Diz ao meu filho desde pequeno que era preciso lavar o “furico” depois de fazer cocô. Achei esta alcunha bem engraçada, e, de certa forma, resolveu a questão anal, digamos. E daí que chegou a minha vez. Como se chama aquilo da mamãe? Respondi, na época, sem pensar muito:

 

“Xoxota, filho. Esta é uma xoxota”.

 

Pronto, mudei de assunto, estava respondido. Sei lá se foi a melhor resposta, só sei que a partir daí ele apontava para todas as ditas cujas que via na rua e dizia, feliz da vida: “Sô-ssóóó-ta!!!” Eu fazia cara de mãe modernérrima, super Leila Diniz, e seguia a vida.

 

Até que ele cresceu e deixou isso pra lá. Quando minha filha mais nova nasceu, no ano passado, o assunto voltou à pauta do dia. Do alto de seus quase 5 anos, ele agora quer saber por que cada um dá um nome diferente para a xoxota da irmã. Perereca, pepeca, florzinha, perseguida, baratinha. E por que o pinto dele é só pinto e acabou. No máximo, peru. E mais: por que as brincadeiras que fazem com ela são sempre para esconder – e, com ele, era sempre para mostrar.

 

“Vamos guardar esta perereca!” “Ei, cadê o seu peru?”

 

Achei interessante o fato de uma criança tão pequena já perceber a forma como a sociedade diferencia – e discrimina – gêneros. Fica claro, portanto, mais uma vez, que devemos tomar muito cuidado com o que se fala perto das crianças. Certas brincadeiras, por exemplo, deveriam ser abolidas para sempre.

 

Eu não soube direito como resolver os questionamentos do meu filho. Acabei respondendo de forma genérica: “Porque tem gente que dá muita importância para isso. Seja lá o que for, ou o nome que tiver, cada um tem o seu. São diferentes e só.”

 

E você, como trataria deste assunto?

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