Semente da educação

Na semana passada, assisti a um documentário exibido na 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o Sementes do Nosso Quintal, sobre a escola paulistana Te-Arte. Não conhecia a história, mas a tal escola foi fundada por uma senhorinha, a Therezita Pagani, que, com a ajuda de um andador, perambula por seu enorme e mágico quintal, dá ordens e conduz a criançada. É uma escola, no mínimo, inovadora. Ali, não há sala de aula, secretaria, currículo nem momento exato para dar início à alfabetização de uma criança. Como diz uma das professoras no vídeo, os alunos “pipocam” na hora certa. As aulas acontecem dentro de um enorme salão em formato de oca, que também abriga as reuniões de pais e as refeições da molecada. Lá fora, no meio da terra, do barro, dos bichos (há um viveiro) e das plantas, os pequeninos brincam muito. Riem, choram, aprendem, ensinam e são felizes.

Saí emocionada e feliz da sala de cinema. Cenas de crianças bem cuidadas e alegres em geral roubam lágrimas dos meus olhos que não são lá muito egoistas mesmo. O que mais me emocionou, porém, foi ver a forma como a senhorinha fundadora da escola acolhe as crianças. Não, ela não é do tipo fofinha. Pelo contrário. Alta e levemente séria, faz um tipão autoritário. Mas engana-se quem pensa que, de sua boca, saem broncas, “nãos” ou coisa do tipo. Ela também não é permissiva. Tê, como é chamada ali, é do tipo que dá nome às coisas e às situações, que mostra à criança o que exatamente ela fez e coloca cada coisa em seu lugar. Sem dizer palavra “não”, ela informa se a atitude do aluno está ou não de acordo com o que se espera dele naquele círculo social. E, no meu entendimento, ensina muito mais do que alguém – como eu, confesso – dá broncas enfáticas.

Exemplos: Em uma das cenas, uma garotinha volta para dentro da escola para contar que foi ela quem jogou algo no chão. Já no carro, o pai ouvira um zumzumzum no banco de traz, descobrira a peripécia da filha e a encorajara a contar para Tê. A menina concordou, mas foi com o rabinho entre as pernas, morta de medo da bronca que tomaria. Para surpresa de todos, inclusive dos espectadores, ao ouvir o confissão, a educadora abre os braços e dá os parabéns à menina. Afinal de contas, assumir um erro é um grande feito. Depois do carinho, pede, então, que ela limpe o que fez. Em uma outra situação, um menino machuca o ganso da escola. O bicho sangra. O garoto é, então, levado para Tê. Zangada, ela informa que aquilo é “bobajada”, descreve o que aconteu com a ave, e pergunta se ele gostaria que lhe fizessem o mesmo. O menino se constrange e é acompanhado ao quintal, onde tem que ajudar a fazer os curativos no ganso. Depois, fica de lado, nitidamente arrependido.

Desde então, tenho tentado fazer coisas parecidas aqui em casa. Mas nem sempre – ou quase nunca – consigo. O hábito da bronca, do “não pode” é mais forte. Mesmo assim, vou continuar tentando. Isso porque, ao contrário do que eu costumo ouvir por aí, não acho que crianças nasceram sabendo e nem que fazem coisas “só para nos sacanear”. Tenho convicção de que elas aprontam porque estão, sim, testando o mundo, as coisas, as reações. Penso ainda que informar o que está acontecendo e colocar as coisas no seu devido lugar funciona muito mais do que simplesente coibir. Não por acaso, de uns dias para cá, a Valentina tem nos perguntado com frequência: “O que eu estou fazendo, mamãe?”

Fotos: reprodução/Sementes do Nosso Quintal


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