Entre Letrinhas: Tem livro no tablet do seu filho?

Sou daquele tipo de mulher que adora uma arrumação. O armário da filha, a gaveta do marido, as panelas da cozinha. Se deixar, passo o dia separando, classificando, fazendo pilhas daqui e outras de lá. Cada coisa no seu canto. O problema é que chega uma altura da vida da gente que tudo ao nosso redor parece estar no lugar e, mesmo que não esteja, é preciso começar a se conformar que nem todos querem seguir a nossa lógica de funcionamento. Filhos adolescentes são a prova cabal disso. Não adianta, eles sequer respeitam a lei da inércia, quanto mais as ordens da mãe para não deixar roupa jogada no chão, arrumar o material da escola, levar o prato sujo para a cozinha…

Foi num desses ímpetos de arrumação de gente que quer arrumar mas sabe que já não é mais tão necessário assim que outro dia entrei no quarto do caçula, 12 anos, e além da bagunça de sempre encontrei jogado em um canto da cama o iPad. Isso mesmo, o nosso bom e velho tablet, aquele que um dia foi objeto máximo de desejo e que quando, finalmente adquirido, chegou em casa de forma triunfante! Orgulho da família. Motivo de disputas ferrenhas. Um objeto amado, sem o qual não podíamos trabalhar, viajar, dormir, acordar e até ir ao banheiro. Isso deve ter acontecido com você também. E assim como na minha casa, é provável que atualmente o seu iPad também esteja, digamos, esquecido em um lugar qualquer como o emaranhado matutino de lençóis e cobertores da cama das crianças… Ufa!

Já começava a subir o sangue com esse desleixo do menino quando resolvi ligar o iPad e – por que não?! – arrumá-lo. Isso mesmo. Faz tempo que ninguém usa e olha só a bagunça que está. Aplicativos do pai misturados com os joguinhos das crianças. Aplicativos inúteis que nem usamos mais: para distorcer fotografias, um gamezinho cheio de abelhinhas, outro de maquiagem, uma plantinha que precisa de água, um copo de cerveja que se enche cada vez que agitamos o aparelho… Quanta inutilidade! Este iPad precisa ser arrumado!

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Por favor, não me julgue mal. Até parece que sou uma desocupada. Mas quem como eu tem essa mania, sabe como é. Eram 6:40 de uma manhã de quarta-feira, marido e filhos a caminho da escola, e eu lá, vendo o que podia deletar, o que colocar junto do que, o que é útil, o que é inútil. Durante esse esforço para inventariar a bagunça, fiz uma descoberta surpreendente: em quatro anos de uso, conseguimos reunir naquele pobre aparelho 04 apps bancários, 16 apps de tratamento de imagens, 17 aplicativos esportivos, 29 apps de viagem, 158 gamezinhos de criança, 127 games que adulto também pode jogar. E nenhum livro. Ou revista. Ou jornal.

Não me espantei com os quase 300 games, mas sim com o fato de, após anos de intenso contato (verdadeiro amor), nunca termos usado o tablet para ler. Trabalho com livros. Sou autora, escrevo livros. Sou editora, faço livros. E mesmo amando os livros impressos, sei da importância da tecnologia para o mundo editorial. Ela representa uma revolução. Ainda não aconteceu, mas vai. Eu espero por isso, eu desejo isso: um mundo mágico no qual o autor pode publicar seus livros sem precisar camelar de uma editora para outra. E mais ainda: um mundo maravilhosamente mágico no qual as editoras podem comercializar seus livros sem depender das livrarias. Um mundo onde o leitor digita “livro para bebê” e uma imensa lista de títulos imediatamente disponíveis para serem lidos surge na tela à sua frente. Eu desejo ler, eu posso ler.

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Fiquei decepcionada em perceber que a tecnologia trouxe uma porção de novos hábitos para a minha família, mas ainda não transformou o nosso modo de ler. Não quero dizer que o livro digital seja melhor do que o livro impresso. Nada disso. Minha reflexão de hoje é em nome da revolução que o hábito da leitura no suporte digital pode provocar em todos nós:

1. encontraremos mais facilmente os livros que nos interessam;

2. conseguiremos acesso a livros de autores que não chegam às editoras ou às livrarias;

3. teremos um pouco mais de independência em relação às pressões dos grandes grupos editoriais que nos empurram um monte de leitura de qualidade duvidosa;

4. os livros serão mais baratos.

É verdade: poderemos ler mais e melhor. Já pensou nisso? Que tal ir lá no tablet das suas crianças e dar uma olhadinha em quantos livros já foram downlodados. Se você é como eu, é provável que a sua família também não tenha aderido a essa revolução que vem por aí.

 

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