Primeira vez

 

Coluna-Entre-Letrinhas_Roald-Dhal

Minha filha foi fisgada. Não se trata de paixonite nem amor. Mas, pela primeira vez desde que lê sozinha, um livro a arrebatou perdidamente. Ela leu um capítulo por traz do ombro de uma amiga que parecia entretida – foi o bastante. Não sossegou enquanto não fomos à livraria. E, assim que lhe pôs as mãos, só o largou para comer.

Foi para mim um prazer e um assombro testemunhar tal fenômeno. Poder observar como acontece que, sem mais, um livro nos toma de assalto, nos torna seu cúmplice, quase um cativo. Ver como se desenrola, perto do final, aquele embate entre querer terminar, seco de curiosidade, e ao mesmo tempo tentar prolongar o momento para não se sentir órfão daqueles personagens.

Ela já tinha sido laçada por um autor. Entre os 6 e os 8 anos, Roald Dahl foi sua descoberta e seu desejo. Enfileiramos os livros na estante como troféus. Rimos e por vezes nos assustamos com aqueles personagens crus, insensatos. Com os delírios desse galês filho de noruegueses que era apaixonado por coisas tão distintas quanto chocolates, orquídeas e intervenções cirúrgicas. Curiosamente, e nem sei por que, ficou de fora o mais famoso: A Fantástica Fábrica de Chocolate. Assistimos ao filme enquanto O BGA, James e o Pêssego Gigante, Matilda, Os Pestes e O Remédio Maravilhoso de Jorge foram se acumulando na prateleira. Agora, saiu mais um (indico abaixo).

Mas querer devorar um autor é diferente de poder desfrutar, com seus próprios olhos e ninguém por perto, de um livro que nos arrebata. A obra, a bem da verdade, nem é tão incrível (a quem interessar, Diário de uma Garota Nada Popular, de Rachel Renée Russell, Editora Verus). Espero que com o tempo, ela depure o gosto.

O essencial, já aconteceu: esse livro inaugurou um prazer. E fez reviver em mim a força das primeiras vezes. A expressão que surgiu quando provou o primeiro alimento que não foi leite do meu peito – um figo doce que atingiu seus sentidos e transformou seus olhos num espanto também novo, e depois em aprovação. Ou a alegria do primeiro passo sem apoios, quando experimentou a liberdade de enxergar o mundo de outra altura, de lançar-se no espaço.

Espero guardar na memória mais esta primeira vez. A conquista de mover-se, sozinha, por entre o que a humanidade produz de mais ousado e único: literatura.

Mais um do nosso amigo.

Livro_O-Dedo-Magico

LIVRO

Saiu recentemente O Dedo Mágico, no qual Roald Dahl cria um mundo às avessas, em que homens têm de procurar gravetos para construir seus ninhos sobres as árvores enquanto patos dormem em camas arrumadinhas, tomam banho de banheira e circulam com espingardas. Uma denúncia divertida e bizarra, bem ao estilo do autor, sobre os abusos do homem contra a natureza.

LIVRO O Dedo Mágico

AUTOR Roald Dhal

EDITORA 34


COMPARTILHE!




LEIA TAMBÉM: