Viagem com os filhos

Giuliana e a filha em uma praça em Berlim

Minha filha está prestes a completar dois anos e, como imagino que seja natural a toda mãe, tenho repassado mentalmente algumas fases da nossa vida neste período. Certas situações recorrentes se tornaram parâmetros de comparação bem interessantes. Nos seus primeiros seis meses de vida, quando frequentávamos as sessões do Cinematerna, por exemplo, eu comparava as idas ao cinema para observar como ela – e eu também – estava crescida. Depois que eu voltei a trabalhar e, principalmente, que ela começou a andar, paramos de ir ao programa. Passei, então, a comparar como nós nos comportamos em nossas viagens importantes, dessas que são um marco na vida de uma família. Aconselho outros pais e mães a fazerem algo semelhante. É divertido e curioso. Olha só:

40 dias: A primeira estrada

Fizemos um bate e volta até Campinas. Era o aniversário de 2 anos da Malu, afilhada do meu marido. Ele estava saindo para encarar a estrada sozinho, o dia estava lindo e eu amamentava ao som do sambão no boteco da esquina. Decidi, de uma hora para outra, que iríamos com ele. Chegando ao buffet, passei reto por quem eu pude no salão e fui direto para aquela salinha reservada para trocas de fraldas e afins. Passamos a festa ali, conversei com conhecidos e outras mães, meu filhote mamou e voltamos. Foi ótimo ter tido a coragem de sair.

50 dias: A(s) primeira(s) noite(s) fora de casa

Fomos passar o Carnaval na casa da minha sogra, no interior de São Paulo. Levei um arsenal de coisa. Usei metade. Fiquei bastante atrapalhada na hora de amamentar de madrugada, mas descobri que a Valentina estava, de fato, entrando no ritmo maravilhoso de só acordar uma vez por noite, por volta das 5h30 da matina e voltar a dormir até umas 7h. Fizemos muitas outras viagens desta desde então e, na mais recente, levei uma malinha minúscula.

Passeio no zoológico de Berlim

4 meses: O primeiro avião e o primeiro busão

Pegamos o avião até Porto Alegre. Em seguida, embarcamos em um ônibus para uma viagem de 4 horas até o interior do Rio Grande do Sul. O objetivo era chegar para a festa de aniversário do bisavô da Valentina. Correu tudo muito bem. Surpreendentemente, descobri que viagens de ônibus podem ser tranqüilas com bebês pequenos. Deu até para ela mamar e para nós duas dormirmos por mais de uma hora no balanço do busão. Ah! E também fomos à festa, mas eu e ela voltamos mais cedo. Na volta, um acidente: levei uma mordida no seio (sim, ela já tinha dentes) porque ela assustou com o tranco da decolagem do avião. Não recomendo.

8 meses: A primeira vez no Rio de Janeiro

Fomos passar um fim de semana no Rio para acompanhar o maridão no lançamento do seu livro na Bienal. Fazia poucos dias que a Valentina tinha aceitado tomar a mamadeira, mas continuava no peito e eu ainda estava me acostumando com aquela parafernália de bicos, roscas, esterilização e afins. Pior: ela estava engatinhando e tinha muitos pesadelos de madrugada. Foi um caos. Com medo do que os funcionários do hotel fariam com as mamadeiras, joguei quase um litro de álcool pelo banheiro, lavei eu mesma os frascos ali e pedi água fervendo para enxaguar tudo (não precisava tanto, né?). Ao voltar, escrevi um email para minha analista pedindo para voltar ao divã. Ela concordou.

11 meses: O primeiro Natal

Voltamos ao Rio Grande do Sul para o Natal. Pegamos novamente avião e ônibus e, mais uma vez, nos saímos bem. A Valentina já comia comida de adulto com algumas modificações e adorou o tempero da fazenda da bisa. O problema, desta vez, foi o berço. A história dele é linda, pertenceu ao avô do meu marido, a família inteira dormiu lá. Mas, como as grades são baixas, minha filha não podia dormir ali sem alguém por perto. Pior: esquecemos a babá eletrônica. Por isso, a cada soneca, alguém tinha que fazer o sacrifício de dormir junto ou ficar ali, ao lado, lendo um livro ou curtindo um som no IPod enquanto a chuvinha fina caia sobre o pasto lá fora. Difícil…

Mãe e filha no zoológico de Berlim

13 meses: O primeiro Carnaval na praia

Voltamos ao Rio Grande, mas, desta vez, para o litoral, na casa da outra bisavó da Valentina. Cidade cheia, som carnavalesco no último e a obrigação de cozinhar diariamente em uma cozinha que não é minha (e se tem uma coisa que me irrita é a obrigação de cozinhar) para uma criança que teve dor de barriga por causa da papinha industrializada oferecida durante o percurso. Mais: tivemos novamente problemas com o berço. E o pior é que, desta vez, ela nem queria chegar perto do negócio. Acabamos compartilhando a cama com um bebê que adora dar giros de 360. Não curti.

16 meses: O primeiro vôo transatlântico

Passamos um mês fora de casa. Quinze dias na Alemanha, onde visitamos três cidades, Berlim entre elas, e outras duas semanas em Paris, em um apartamento alugado. Esta viagem merece um post só para ela ou uma série deles. Eu, Valentina e meu marido crescemos muito naquele mês. Crescemos como indivíduos, como família e como viajantes. Simplesmente sensacional.

20 meses: A primeira vez em Minas Gerais

Era fim de semana de eleição e tínhamos que voltar cedo no domingo para participar da festa da democracia. Mesmo assim, convenci meu marido a fazermos um quase bate-volta para participar do aniversário do meu primo caçula na fazenda onde eu passei boa parte dos dias felizes da minha infância e adolescência. Foi muito legal ver a Valentina brincar no terreiro que eu brinquei, montar um cavalo com o mesmo medo e fascinação que eu montava, molhar os pés no balde enquanto o sol se põe, comer churrasco, dormir sem banho.

Giuliana preparando a mamadeira em um café parisiense: “Quanta mudança!”

 

21 meses: A primeira viagem sem a Valentina

Eu e meu marido passamos o feriado de 12 de outubro em Trancoso. Tínhamos um casamento e aproveitamos para fazer uma nova e pequena Lua de Mel. Já crescidinha e acostumada a dormir sozinha com a minha mãe, Valentina foi avisada sobre o que aconteceria. Perguntou por nós, mas ficou muito bem por aqui. Nós? Curtimos muito. E, como foram só duas noites fora e ela estava em companhia para lá de confiável, confesso que não derramei um pingo de lágrima. Pelo contrário: comemorei nossa dupla independência.

22 meses: A primeira vez na Bahia

Passamos o último feriado na casa dos tios do meu marido na Praia do Forte. Foi a prova de que Valentina é mesmo uma menininha e não mais um bebê, embora oficialmente ela esteja a dois meses de assumir o posto. Nossa mocinha se exibiu provando a aprovando caranguejo, lambreta e outros sabores litorâneos. Fez farra na piscina sem sair do território seguro, onde dava pé para ela, colocou todo mundo para dançar, fez festa ao ver os micos no cajueiro e esnobou as tartarugas pequenas do Projeto Tamar. O negócio dela eram as “enolmes, mamãe”. Dormiu tranqüila no bercinho de camping que, desde o Carnaval gaúcho, carregamos conosco e deu seu primeiro escândalo dentro de um avião. Amei. Amamos.

Fotos: Arquivo pessoal


COMPARTILHE!




LEIA TAMBÉM: