Tosco Pai Viaja: Rosario, Argentina [Parte 3]



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– Pai, eu tive uma ideia… Que tal se a gente fizer um enroladinho de presunto e queijo e colocar o ovinho dentro do enroladinho?
– Essa é uma boa ideia!
– Cê acha?
– Acho…

Peguei, montei seu prato…

– Pai, eu que quero fazer meu enroladinho…
– Bueno, tá tudo aqui…

Tentou, tentou e não conseguiu…

– Pai? Acho que você pode fazer pra mim…
– Pronto!
– Pai, acho que não tá dando muito certo, o ovo tá todo escapando…
– É, não tá mesmo…

Separamos o ovo do enroladinho, dois copos de leite com chocolate. Eu com o meu já tradicional sanduíche com medialuna salgada, depois medialuna com dulce de leche acompanhado de xícaras de café e finalizava com um suco de laranja.

Rapidamente, fomos atrás do protetor solar e do repelente de mosquitos.

Agora invertiámos o nosso passeio: vi na noite anterior o comércio fechando, vi nessa manhã o comércio abrindo, e que linda luz no centro de Rosario! A manhã chega bonita, como o sol na Argentina parece mais forte, mais amarelo e brilhante.

Terminadas as compras e com um “Dáme lo que tiene!” da atendente da farmácia me dando um desconto de quatro pesos pois não tinha troco, voltamos ao hotel.

Precisava besuntar a menina com o protetor.

– Alice vem cá… Deixa o pai passar o protetor…
– HAHAHHAHAHAAHAHAHAHAH, é gelaaaaaado!

Na minha cabeça passava uma propaganda que vi nesse último verão. Nela, um rapaz que recebia um jato de spray morria de contentamento e ria durante os quinze segundos do reclame, passava uma sensação de frescor e felicidade.

– Vem, deixa eu passar mais…
– Hahahahahahahahahahaaha, faz cocégas!
– Agora fecha os olhos e a boca….
– AAAAAAAAAAh! Meu olho, meu olho, meu olhooooooo…

Saio correndo de um lado para o outro, pego um monte de papel-higiênico…

– Meu olho, aaaaaah! Tá ardendo. Ahhhhh.

Molho o papel, vou passando nos seus olhos e dizendo…

– Calma, amor… Não abre o olho…
– Mas eu não abriiiiiiii!
– Eu sei, continua assim… Passou?
– Tá melhorando….

Nunca tinha usado protetor solar em spray, não gostei da experiência. Claro que depois que eu usei eu li as instruções. Deixo aqui uma dica importante: leiam antes de usar, ajuda muito.

Descemos e todos estavam a nossa espera. Tenho feito de tudo pra chegar na hora – e teria conseguido dessa vez se não fosse esse protetor solar de spray…

Partimos para o porto de Rosario. E lá um dia lindo de sol nos esperava. Esse mesmo sol que me aterroriza por conta de sua pele tão branca. Quando ela tinha 3 meses de vida, me descuidei de um sol de outubro e o estrago não foi pequeno.

Já no barco, os primeiros lugares que sobraram me separaram de Alice, nesse caso procurei um lugar para que sentássemos juntos. Afinal, era nosso primeiro passeio num barco a motor – se eu tenho medo do meu celular cair na água, imagina da minha filha.

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Antes do barco partir, Eliane, mãe de pedro, usava um fator 15 na sua fórmula mais clássica. Pedi um pouquinho e deixei a menina glasseada, tipo um alfajor branco. Rosto e braços, as pernas estavam numa área de sombra e, claro, já com fator 50.

Brrrrrrrrrrrrrr!!!!!

Frio? Não, essa é a minha onomatopéia para o motor.
Estavam no barco, eu, Alice, Carol, Bia, Eliane, Pedro, Santiago, Cláudia, Sílvio, Emanuel e Marcelo, o guia das águas.

Marcelo ia narrando nosso percurso, explicando como é a vida do outro lado do Rio Paraná. Como fazem para ir ao mercado, o que produzem, como no verão o lugar fica irreconhecível. Para e nos mostra uma casa, que dizem ser mal-assombrada. No topo de uma palmeira em frente à casa um abutre come um outro pássaro – ou um rato, de longe fica difícil identificar que animal teve tal infortúnio, mas o cenário estava desenhado e, sim, era assombroso.

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Porém, a casa é linda e moraria ali com facilidade. Bem… nem tanto, eu teria que ter um barco. Mas, enfim, todos ali encontram o mesmo problema. Existem épocas que as cheias castigam os moradores e a água ocupa mais espaços que deveria. Em algumas casas vemos uma linha desenhada que mostra o nível de uma cheia.

No passeio, encontramos vaqueiros que dominavam uma vaca e tinham que levá-la de volta ao seu cercado; tinham que fazer isso sem machucá-la, dois homens em cavalos, dois homens em barcos, mas o animalzinho conseguiu enganar os quatro. Até que nos pediram que saíssemos dali, pois estávamos assustando ainda mais a vaquinha rebelde. E assim fez Marcelo, voltou a ligar o motor e nos encaminhamos para encontrar Don Taco, um senhor de 88 anos que vive sozinho, mas é muito visitado por todos, adora uma boa conversa e é muito vaidoso.

– Hola Don Taco, acá tengo conmigo brasileños e un fotógrafo de nuestra municipalidad y quieren tomar algunas fotos de usted…
– Hola qué bueno!!!

Don Taco declamou uma poesia, sorriu, falou do seu convívio com a natureza e nos desejou uma boa viagem.
Marcelo ligou novamente o motor, deu sequência a nossa viagem e completou.

– Listo, Don Taco ahora pude hablar por más de una semana…

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Sentia o vento nos meus cabelos, o cheiro do mato, olhava para o sol e o céu, tudo isso tomando um amargo mate de yerba Argentina.

Era engraçado pois todos eles olhavam para mim achando que eu ia cuspir ou tomar o primeiro gole e desistir, mas explicava que eu era de um estado que se orgulhava muito do chimarrão. Era diferente, não tão amargo, uma erva mais fina, mas que adorava matear – e com todo esse cenário o que eu menos sentia era o amargor da erva.

Vimos as praias de Rio Paraná, e Marcelo chamou nossa atenção para algo que para os brasileiros pode parecer estranho: pagar por uma praia. Eles chamam de balneário e é uma espécie de uma taxa de manutenção. E está tudo bem pois se vê retorno: os lugares estão limpos e o respeito ao rio e à natureza tem muita importância para os rosarinos.

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Agora a velocidade é bem alta e eu sempre tenho que pedir para Alice sentar-se, seja em espanhol, português e até em inglês.

Ficou muito amiga de Silvio, o fotógrafo da municipalidad. Se empolgava e levantava enquanto o barco estava andando… e eu sempre pedindo que ficasse sentanda.

Até que chegamos naquele limite onde o pai legal e querido se transforma no pai que pega firme no braço, olha firme dentro dos seus olhos e ela enxerga toda preocupação e, claro, o medo que tenho que ela se machuque.

Alice encontra uma corda e agora durante todo o passeio, finge pescar…

– Olha pai, estou pescando peixes invisíveis…
– Que legal, ele deve ter uma carne muito saborosa, e leve…

Agora o ponto máximo de nossa viagem de barco: a ponte Rosario-Victoria – ou Puente Nuestra Señora del Rosario.
Marcelo nos conta que a ponte foi construída por holandeses.

– Después de todo, ellos entienden mucho acerca del agua.

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Pela costa do rio, vimos mais praias e o antigo porto. Ele não foi destruído, mas, sim, incorporado à cidade. Novas construções se fundem com as antigas e nada é colocado abaixo, a história precisa estar presente para os argentinos. Para mim, em Rosario ficou claro que a história tem mais voz que o dinheiro. Você pode comprar uma casa velha, um prédio antigo, mas não destrua sua fachada, restaure.

Agora o motor estava desligado, víamos a cidade, estávamos de frente para o monumento à bandeira, no ponto onde o rio era mais fundo, 30 metros de profundidade.

O barco balançava tranquilo, o vento acariciava todos nós e Alice ainda pescava seus peixes invisíveis. Algumas embarcações passaram por nós e Alice ficava fascinada com o tamanho delas. E isso só melhorava aquele que – depois eu saberia – teria sido o melhor passeio de todos para ela.

Saiu feliz e saltitante e fomos almoçar. Uma foto do grupo todo e lá vamos nós para perua de Emanuel Lago.

O almoço estava programado no Sunderland Viejo Bar. Na Argentina, Alice apredeu a tomar mais água, visto que nunca encontrávamos o seu amado suco de uva. Em nenhum lugar deixei de pedir e sempre ouvi a negativa.

– No hay jugo de uva!

Então, água.

– Sem gás.

Nesse dia acertei no cardápio para Alice, um tradicional argentino à prova de erros e que até o momento ainda não tinha me ocorrido: milanesa con papas fritas. E acertei muito levando alguns dos seus brinquedos para a mesa. Carol, com seus 13 anos, voltou um pouco no tempo e matou suas saudades de algumas bonecas… Quando minha filha for adolescente, torço para que em muito ela se pareça com essa menina tão educada e companheira, fez dos dois pequenos seus irmãos, brincava sem nenhuma vergonha, sem ser uma adolescente chata.

Voltando à mesa, eu escolho a carne, já tradicional, e a cerveja, cotidiana.

Nesse almoço muito agradável, conversamos sobre educação – Cláudia, nossa guia, tem uma filhinha chamada Lupe – e depois voltávamos para o assunto Argentina, com sua gente, sua comida e até a sua história. Não há como fugir da história e da política de um povo. Falamos sobre as Mães da Praça de Maio e as Avós. Quase quisemos mudar de assunto, porém não conseguimos. Depois de muito mastigar e engolir alguns assuntos, já satisfeitos pensamos todos em parar de comer pelo resto das nossas vidas, seguimos com esse tema, falando sobre o sacrifício de cada um em cortar certos alimentos ou porcarias que ingerimos.

– Eu estou 22 dias sem refrigerante…
– Nossa! Eu não vivo sem refrigerante…
– Eu tirei o açúcar do café e agora parei com o refrigerante, só posso beber quando reencontrar dois amigos com quem fiz essa aposta.
– Eu quando quero parar com algo fico 21 dias sem comer ou beber…
– Ah, é? Como assim?
– Eu penso: 21 dias não são um mês, então fico 21 dias sem chocolate, 21 dias sem refrigerante…

Confesso que achei essa menina uma gênia, isso é uma ideia tão boa quanto a de não começar um regime numa segunda.

Três garrafas de cerveja depois, divididas, claro, entre três pessoas, pedimos o postre e os cafés. Alice foi caminhar pelo interior do bar, encontrou algumas peças de xadrez e eu fui falar com ela…

– Cara, esse jogo é muito legal…
– Que jogo é esse?
– É xadrez…
– Igual sua camisa?
– É… Olha, esse aqui é o Rei, essa é a Rainha.
– E quem é a princesa? Essa aqui?
– Não, esse é o Bispo!
– Bispo?

Tomara que ela não pergunte o que é um bispo, não sei definir o que é um bispo… Só sei que ele come na diagonal…

– Então, essa aqui é a princesa?
– Não, isso é peão… Esses pequeninhos todos são peão.
– O que é peão?
– É um soldado, são os plebeus… O Tata é um peão…
– Eu sou uma princesa!
– Pois é… Então acho que tu mora aqui, na torre, princesas moram em cima da torre né?
– A Rapunzel mora…

Próximo destino, Isla de los Inventos.

Alice chamou de parque das letras.

Ela viu um escorregador numa letra “B”, uma bicicleta numa letra “D”, um cavalinho numa letra “M” e um balanço numa letra “A”. No entanto, o gira-gira na letra “S’ foi a sensação para ela e dois pequenos rosarinos que giravam enquanto ela fazia poses de princesa e, com a mão na testa, dizia:

– Acho que estou ficando tonta…

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Saiu e seguiu explorando a isla, foi então na oficina de papéis coloridos, fez um lindo papel e depois pintou um elefante.

Quando falavam para Alice que teríamos uma ou duas horas em algum lugar, sempre aproveitava ao máximo, saía de um e logo voltava para outro, com o olhar sempre atento e não enfrentando barreiras com a língua. Tinha momentos que simplesmente não a via, ou ficava de longe espreitando.

Numa dessas, ela montava uma casa com blocos e Elias, um monitor, disse pra ela…

– Puede jugar…
– Hã?
– Pega estos e puede jugar.
What?
– No hablas español?
– No… I’m speak english…

Elias ficou encantado.

Esta neña es su hija?
– Sí…
– Me encantó! Solo habla inglés?
– Português e Inglês…
– Como dicen jugar?
– Brincar…
– Como dicen chica, niña, neña?
– Menina, garota, guria, nenê, bebê…
– Menina?
– Isso…

Então Elias, que daqui a pouco vem ao Brasil, arriscou um português com Alice.

– Hola menina, puede brincar…

Alice já havia entendido que podia e fez um aceno com a cabeça, percebendo o interesse de Elias. Mas logo saiu dali e foi se divertir sozinha enquanto eu dei um pequeno intensivo para Elias, o ensinei a pedir uma coxinha, cerveja, falei dos preços, ele me perguntou sobre a violência e eu disse que existe, mas, como em qualquer lugar, precisamos ficar mais atentos do que com medo.

Sorriu, me agradeceu e me desejou uma boa estadia em Rosario.

Pois é, meu amigo Elias, essa cidade está parecendo uma casa de avó: como muito bem, sou tratado com muito carinho, não me deixam levar a mão no bolso e me levam a todo lugar, meus tênis pouco caminharam pelas ruas, ruas tão boas de andar.

A Isla de los Inventos é um espaço incrível para as crianças, elas criam e pensam um mundo bem mais cheio de arte; e para nós, pais, em todo e qualquer lugar podemos brincar com elas. Acho que as crianças de Rosario assistem bem menos televisão.

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Julia, que havia substituído Claudia, nos levou até o clube de pesca, onde adora passar as tardes com sua filha e seu cachorrinho.  Julia pesca e diz ser um grande bálsamo pra ela ver a água correr e ficar à espera de um peixe que pode levar fresco para casa e comer uma carne de sabor inigualável.

Nesse trecho do nosso passeio olhei fixo para o rio, pedindo que ele levasse com sua correnteza todo meu mau-humor. Entreguei tudo ao vento e disse pra deixá-lo na água e que o rio levaria embora. Preciso sempre ser melhor e mais paciente com a minha filha, que muitas vezes pergunta porque estou tão sério, onde está o meu sorriso, e não gosta de ver seu pai triste, embora às vezes eu só esteja sério mesmo.

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Voltamos pra van…

– Perua, pai!!

Frase que mais ouvi na Argentina.

Já no caminho do Museo de Los Ninõs, passamos rapidamente pela casa de Che Guevara, outro rosarino ilustre, mas não podemos subir nem tirar fotos na frente da casa, só algumas fotos de dentro da perua mesmo e o olhar curioso. Amo os lugares onde a história ainda tem vida, aquela esquina onde ele nasceu ainda diz muito – e isso que nem saímos do carro. Mas existem coisas que Rosario guarda para o meu retorno à cidade.

No Museo de los Niños teriámos duas horas. Eu ainda queria algum tempo dentro de uma livraria, comprar algum livro do Cortázar em espanhol para reforçar minhas aulas práticas.

Tentava a todo tempo falar espanhol com Alice, mas ela não entendia muito, até porque sabemos que o que eu estava falando passava muito longe de ser espanhol, o portunhol confunde um pouco, porém, Alice sempre me pedia…

– Pai, fala em inglês…

Ou exclamava perguntando…

What!?

Já na entrada do museu, a perninha dela tremia, os olhos acompanhavam as crianças que corriam felizes pelos dois andares repletos de brinquedos. Até que foi liberada e saiu correndo até o navio pirata que navegava sobre tempestuosas águas de bolinhas.

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Ela prontamente virou seu personagem, a Princesa Sereia Pirata. Já eu, era apenas o Rei Pirata. Todo o roteiro e o argumento eram dela, eu só dava vida ao ator coadjuvante.

Brincou sem parar. Ora pulava no “mar” e nadava loucamente, ora voltava para o barco e dava ordens ao Rei Pirata.

– Ei, Princesa Sereia Pirata, onde está sua calda?
– Rei Pirata, seu bobinho, você sabe que quando eu saio das águas minha calda vira pernas…
– Eu não me lembrava disso…
– É que você é mesmo muito esquecido, Rei Pirata.
– Alice, vamos ver os outros brinquedos?
– Fala com voz de pirata…
– ARGH! Ei Alice, argh, vamos sair, argh, e vamos conhecer os outros lugares, argh…
– Mas, Rei Pirata, eu gosto mesmo é do barco e das águas….
– Tudo bem, mas é que…
– Fala com voz de pirata…
– Argh, tudo bem, voltamos aqui depois, argh, pois temos pouco tempo aqui e muitos brinquedos para conhecer, argh…
– Está bem!

Então, consegui tirar Alice da piscina de bolinhas azuis e encontramos um posto de gasolina com um grande jipe estacionado  esperando que alguém enchesse o tanque.

– Por favor, encha o tanque…
– Ah, paaaai, eu que quero dirigir…
– Mas, cara, tu pode ser o frentista, depois tu dirige.

Eu tinha um sonho de infância de ser frentista. Via os caras com seus rodos limpando o vidro e queria muito fazer aquilo, minha mãe achava bonitinho, mas preferia que eu tivesse outras ambições. Acho que Alice não pensa em ser frentista, ela quer mesmo é dirigir, já eu, que fiz sete exames práticos para conseguir minha habilitação, perdi faz tempo meu fascínio por automóveis.

– Encheu meu tanque?
– Sim…
– Posso ir?
– Sim…
– Você quer uma carona?
– Ah, sim! Obrigada!
– Pronto, agora o pai é o frentista…
– Tá!
– Quer encher o tanque?
– Sim, quero a gasolina azul…
– Pronto!
– Você quer uma carona…
– Eu quero, sim, obrigado.

Subo do lado do carona, Alice dirige muito bem, faz tudo direitinho. Já eu, no banco do carona, me sentindo um pouco entediado, aperto um botão…

Nesse mesmo momento soa um alarme muito estridente e eu começo a olhar pros lados, as pessoas olham pra mim, eu vou saindo do jipe com uma cara de “não fui eu” e também uma cara de “tá bom, foi sim, mas eu não sabia que faria todo esse barulho”

Resolvemos então migrar de brinquedo, fugir, digo, subir para o segundo andar…

Conseguimos, escapamos impunes, não deixamos rastros de nossas culpa, embora não fôssemos culpados. O que aconteceu – soube isso no caminho do aeroporto – é que Carol, que estava no nosso grupo, estava procurando uma saída pois se encontrava no segundo andar e queria descer, viu uma porta com uma maçaneta baixinha e, como tudo no lugar é feito para crianças, numa escala para crianças e imitando uma cidade de verdade, ignorou os dizeres “Saída de emergência”.

No andar de cima brincamos dentro de um avião, conheci um uruguaio que estava com seu filho e nos cedeu os lugares no avião, me contou que é filho de brasileiros, tudo isso ao perceber meu portunhol.

– Te defendies muy bien!
– Gracias, me gusta hablar, me encanta el idioma español…
– A mi, me encanta el portugués, pero mis amigos tienen que hablar despacio…
– A mi lo mismo…
– Que lo pases bien
– Gracias!

Alice já estava a bordo, era a comandante…

– Atenção, senhores passageiros, aqui quem fala é Alice, esse é um voo da TAM…

Depois em inglês…

– Attention gentlemen passengers, who speaks here is Alice, this is a TAM flight …

Fiquei cheio de orgulho, achei o inglês dela melhor do que todos que já ouvi desde os meus 22 anos, minha primeira viagem de avião, talvez por ela ser minha filha, mas sua pronúncia estava perfeita.

Realizou a decolagem e o pouso com muita confiança e personalidade.

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Depois entramos no supermercado COTO. Coto era como chamávamos Alice logo que ela nasceu, então para mim foi uma grata surpresa esse nome. Fez suas compras, eu fazia as vezes de caixa e outras do funcionário que pesa as frutas. Alice fez várias compras e, para orgulho meu e da monitora, sempre devolvia suas compras e logo depois recomeçava.

– Olá, Dona Alice, tudo bem?
– Tudo…
– Muitas compras hoje, não?
– Sim, é que vou fazer almoço e jantar…
– Está certa, tem que garantir os dois, e encontrou tudo que procurava?
– Sim… Mas, sabe, a minha filha Gabi não gosta de banana…
– E pelo visto a senhora come, né? Só sua filha que não…
– É… Mas eu como, ela que não gosta…
– Sei…
– Abóbora…
– Opa, vai fazer uma sopa?
– Sim, a Gabi adora…
– Humm, peixe…
– É, vou fazer pro almoço…
– Aqui está senhora, vai pagar no crédito ou no débito?
– No devito!

Ela ainda fala “devito”, assim que ela parar e começar a falar “débito” vou sentir muitas saudades…

– Hã?
– No crédito, como sempre…

Alice sai para devolver as compras e recomeçar outras…
Então um menininho se aproxima de mim…

– Acepta tarjeta?
– Sí… Como estás?
– Bien…
– Bueno…

O menino coloca duas garrafas grandes de suco e eu lhe pergunto.

– Estás con siede, hã?

Siede, maldito portunhol…
O garoto entende meu esforço e fala como se nada ferisse seu ouvido, quanta educação.
Alice fica com um pouco de ciúmes do atendimento…

– Hola, Dona Alice de vuelta?
– What!
– Hola Alice…
– In english please…
– Hi Alice, how are you…
– Fine, thank’s
– How do you wanna pay?
– This is my Hello Kitty card…
– Wow, the Hello Kitty bank, is the best bank in the word…
– What?
– Best bank in the world…
– Quê?
– Best bank, melhor banco… Crédito ou débito?
– Devito, não, não, crédito, como sempre…

Terminadas as compras, parou um pouquinho para desenhar a Mafalda, brincou e dançou num estúdio de TV e, claro, quis descer e voltar para o barco onde podia ser a Sereia Princesa Pirata.

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Restavam poucos minutos para que voltássemos a encontrar o grupo, sendo mais exato, 10 minutos, Alice detesta quando eu conto o tempo, nunca quer saber quanto falta, apenas quer falar…

– Só mais um pouquinho…

Tenho anunciado o fim de nossos passeios, normalmente com 15 minutos de antecedência. Assim posso cravar…

– Só mais 15 minutos…

Nunca dá muito certo, acabamos sempre ficando meia hora a mais, mas, hoje, principalmente por causa do grupo, serão, sim, dez minutinhos.
O meu despertador tocou…

– Ah, pai! Só mais um pouquinho…
– Não dá, Alice, temos que achar o pessoal…
– Mas eu gostei tanto daqui…
– Eu sei, por isso aqui foi o lugar que mais ficamos, foram duas horas, tu não percebeu porque tava te divertindo bastante…
– É… Por que a gente não percebe quando tá se divertindo?
– A gente percebe quando está se divertindo, o que a gente não percebe é o tempo passando…
– E onde nós vamos?
– Vamos pro hotel… Tomar banho e sair pra jantar. Mas primeiro temos que encontrar todo o grupo e já estamos atrasados.
– Pai?
– O quê?
– O banho pode ser de banheira?

Já é o terceiro dia de Alice na Argentina e todos os dias ela tomou banho de banheira. Eu tomava antes, só de chuveiro, depois deixava a banheira encher e era a vez dela.

– Pai, porque a gente não toma mais banho de banheira em São Paulo?
– Porque lá tá sem água filha…
– Pai?
– Diga…
– Posso fazer uma metáfora?
– Sim, pode…
– Pai, sabe o que é país rico?

Eu nesse momento penso no slogan federal, “país rico é país sem pobreza”, mas não respondo, deixo passar, não vou poluir sua cabecinha agora com polítca.

– Não, filha, não sei.
– País rico é país que tem água, a Argentina é rica o Brasil é pobre.

Então a criança, do alto dos seus cinco anos, percebe que água tem muito mais valor que moeda.

Com ela nos meus ombros encontro nossa turma e todos voltamos para o hotel. Na primeira acelarada da perua, Alice já cai no sono. Também pudera, hoje o dia foi todo dedicado a ela, a mais nova do grupo e, com certeza, a que mais se divertiu nos embalos de um sábado à tarde.

Entramos no quarto e a pequenina dormia. Preparei seu último banho no hotel.
Acordei a guria e, sim, deixei horas ela dentro d’água, só calculei cinco minutos para o meu banho. Ela amou, nadava e mergulhava feliz, muito alegre usando seu shampoo azul que o hotel deu pra ela…

– Como eles sabem que eu gosto de azul?

O dia estava perfeito pra ela…
A noite seria perfeita para mim. Iríamos numa parrillada e Cláudia me prometeu que hoje comeríamos mollejas, umas vísceras, no caso da mollejas, ou timo, a glândula tireóide do bovino. Eu estava saltitante.

Também comi morcellas e cérebro bovino, mas Cláudia havia percebido os meus olhos para a mollejas e minha reação horrível quando Alice roubou um pedacinho do meu prato.

– Que é isso guria! Que falta de educação roubar do prato dos outros assim! Espera que eu te sirvo…

Ela ficou muito envergonhada, me pediu desculpas e eu me vi mais uma vez como um mostro que não consegue entender a espontaniedade de uma criança, misturando tudo com o meu trauma de infância, porque meu pai sempre roubava a comida do meu prato.

Me acalmei, nos acalmamos e ela dormiu no meu colo com um guardanapo no rosto, apagando a luz.
Seguimos comendo muitas carnes, porém eu sempre voltava para as mollejas.
O jantar terminou e eu saí pesado dali e com Alice adormecida em meus braços.

Agora, toda uma nostalgia que se confundia com um pouco de indigestão e se apoderava de mim. Coloquei Alice na cama e fui arrumar nossas malas para que nosso último dia em Rosario fosse apenas passeio, nenhuma preocupação.

Dormi tarde, acordamos cedo.

 

PARA SABER MAIS

CURTIR

CLUB ATLÉTICO NEWELL’S OLD BOYS
O QUÊ?
Estádio do Newell’s Old Boys, por onde já passaram Leonel Messi, Maradona e Tata Martino, atual treinador da seleção argentina. Para conhecer os campos e as instalações, é possível fazer uma visita guiada de cerca de 1h30 (Reservas: visitasguiadas@newellsoldboys.com.ar; cultura@newellsoldboys.com.ar; Tel: +54 (0341) 156 620132)
ONDE? Parque Independencia, S/N
MAIS INFOS  www.newellsoldboys.com.ar

EL JARDÍN DE LOS NIÑOS
O QUÊ?
Parque lúdico que incentiva a imaginação e criatividade dos pequenos em atrações pedagógicas e divertidas. Fazem parte do complexo a “Montañita Encantada”, que trabalha os elementos da natureza; o espaço “Leonardo, el Inventor”, sobre as criações de Leonardo da Vinci; a “Máquina de Volar”, que, como o nome indica, permite “voar”, entre outras atrações.
ONDE? Parque de la Independencia; +54 (0341) 4802421.

LA CASA DEL TANGO
O QUÊ?
Inaugurada em 2004 em um antigo galpão da companhia férrea totalmente reformado, celebra a cultura do tango, com grande tradição em Rosario. Nos domingos, a pista é aberta para os que desejam dançar o ritmo argentino e, toda sexta-feira, as Tertulias Tangueras reúnem os aficcionados pelo ritmo em reuniões com música, apresentações e vídeos.
ONDE? Illia Pte. Arturo, 1750, +54 (0341) 4802415
SITE www.facebook.com/casadeltangorosario

LA GRANJA DE INFANCIA
O QUÊ?
Aqui as crianças entram em contato com os animais, os utensílios e as tarefas típicas da Granja, um hábitat ribeirinho com flora e fauna próprios do litoral argentino, além de horta e viveiro de espécies.
ONDE? Avenida Pte Perón, 8100; +54 (0341) 480-7848.

LA ISLA DE LOS INVENTOS
O QUÊ?
A antiga estação de trens Rosario Central foi totalmente reformada para dar lugar a este espaço que reúne jogos e brincadeiras que mesclam arte, cultura, ciência e tecnologia. Tudo pensado de forma lúdica para entreter os pequenos.
ONDE? Entre as calles Corrientes e Wheelwright; +54 (0341) 4802571.

MONUMENTO NACIONAL A LA BANDERA
O QUÊ?
Monumento construído no local onde o General Manuel Belgrano asteou pela primeira vez a bandeira argentina, em 1812. Tem galeria, cripa e um mirante que permite ver Rosario do alto!
ONDE? Calle Santa Fer, 581, +54 (0341) 4802238/ 9
MAIS INFOS monumentoalabandera.gob.ar

MUSEO DE LOS NIÑOS
O QUÊ?
Espaço que recria uma cidade, com ambientes como aeroporto, maternidade, supermercado, canal de televisão… Tudo planejado para que as crianças de 3 a 12 anos passem por situações típicas da vida urbana, mas numa grande brincadeira.
ONDE? Alto Rosario Shopping; +54 (0341) 410-6680.

PLATAFORMA LAVARDÉN
O QUÊ?
Centro cultural com a mágica Galería de los Roperos, onde portas de antigos guarda-roupas (os roperos) levam a ambientes especiais, como uma sala de fantasias, uma cama gigante, espaço de jogos e até um carrosel!
ONDE? Entre as calles Mendoza e Sarmento, +54 (0341) 4721462
MAIS INFOS plataformalavarden.com.ar

 

COMER

BEATLESMEMO PUB
CULINÁRIA Pizzas, sanduíches, saladas e petiscos
ONDE?
Bv. Oroño, 107, esquina com Güemes; +54 (0341) 2230757
MAIS INFOS
www.beatlesmemopub.com.ar

EUSCAURIZA 
CULINÁRIA
Regional/parrilla
ONDE?
Bajada Escauriza/Paseo Ribereño, La Florida
MAIS INFOS
www.escaurizaparrilla.com.ar

HELADERÍA COPACABANA
CULINÁRIA
Sorvetes artesanais
MAIS INFOS
facebook.com/copacabana.helados

LOBBY 360
CULINÁRIA
Regional e contemporânea
ONDE?
Avenida Corrientes, 919, Hotel Presidente
MAIS INFOS
www.lobby360.com.ar

MADDALENITOS
CULINÁRIA
Pizzaria e cozinha regional. Tem espaço infantil com jogos, cine 3D, oficinas e outras atrações para os pequenos. Tudo monitorado com circuito intermo no qual os pais podem observar os filhos.
MAIS INFOS
www.facebook.com/Maddalenitos

SUNDERLAND VIEJO BAR
CULINÁRIA
Argentina
ONDE?
Av. Belgrano 2010
MAIS INFOS
www.facebook.com/SunderlandBar

FICAR

HOTEL PRESIDENTE
ONDE?
Avenida Corrientes, 919; +54 (0341) 4242789
RESERVAS
www.solans.com/hotel/presidente/spa/hotel.php

 MAIS INFORMAÇÕES

SECRETARIA DE TURISMO DE ROSARIO www.rosario.tur.ar

 

 >> Veja a [Parte 1] da viagem AQUI.

 >> Veja a [Parte 2] da viagem AQUI.

* Viagem realizada a convite do Secretaria de Turismo da cidade de Rosário e pelo grupo LATAM Airlines (Tam Linhas Aéreas e LAN Airlines).


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